quinta-feira, 26 de junho de 2008

Beleza e silêncio na liturgia

Já comentei antes que esse blog não é exclusivamente sobre Liturgia, mas que posso fazer se o tema é tão belo e fascinante? =)

Em entrevista concedida a ZENIT, a professora de arte Cristina Langer falou sobre a beleza da liturgia. Ela tratou do mesmo tema em conferência no Simpósio Teológico comemorativo do centenário da diocese de Ribeirão Preto (São Paulo).

Recomendo a leitura completa dessa entrevista, mas aqui gostaria de ressaltar dois pontos.

Afirma a professora Cristina que "Na Liturgia a beleza é o próprio motivo pelo qual a celebração se dá: para Deus, com Ele e Nele. Qualquer motivo que não seja este esconde a Beleza presente ao invés de revelá-la".

Eis um conceito que está bastante deturpado atualmente: a Missa é para Deus, com Deus e em Deus. Hoje, por má fé ou por má formação, muitas vezes se celebra a Missa pensando-se mais em agradar o povo do que a Deus, esquecendo do fim principal dela.

E, conforme afirma a professora Cristina, quando tristemente se perde essa referência, ou melhor, quando se troca essa referência, quando Deus deixa de ser o centro, toda a beleza da liturgia se esvai...

Esse ponto me fez lembrar algo que li na biografia do Papa escrita pelo vaticanista Andrea Tornielli: "Bento XVI - O Guardião da Fé". Nesse livro o autor cita vários trechos de livros escritos pelo então cardeal Jospeh Ratzinger, sendo que a citação abaixo consta em sua autobiografia (o destaque é meu):

"Deste modo, desenvolveu-se, de fato, a impressão de que a liturgia seja 'feita', que não seja algo cuja existência nos precede, algo que nos 'é dado', mas algo que depende das nossas decisões. Disto se segue, como consequência, que não se reconheça essa capacidade de decisão só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas que, definitivamente, qualquer 'comunidade' queira se dar uma liturgia própria. Mas, quanda uma liturgia é algo que qualquer um faz por si mesmo, então desaparece aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida."

Essa perda da noção de mistério da Missa, de sua sacralidade e de que é, como ressalta Joseph Ratzinger, algo que nos precede, que não podemos manipulá-la livremente, pois a recebemos da Igreja, de Deus!, tem reflexos terríveis na fé do povo e na própria compreensão do que seja a Missa.

Por uma péssima interpretação da reforma desejada pelo Concílio Vaticano II e das possibilidades de escolha oferecidas pelo atual Missal, o que tem ocorrido com extrema frequência são liturgias criadas a partir de preferências do sacerdote, do liturgista ou do povo; menos liturgias conforme "nos foi dado" por aquela que é quem de fato determina o que deve e o que não deve ser feito: a Igreja.

Conforme tem sido feito, a beleza e o mistério da Missa desaparece... E o que fica? Ou melhor, o que substitui o mistério, "fonte de nossa vida"? Sim, porque o essencial da Missa sendo retirado ela deixa de atrair as almas, pois é Cristo elevado quem atrai (Jo 12,32). Ainda que a Eucaristia ainda esteja lá, tanto entulho é jogado sobre ela, que acaba por se perder suas inúmeras graças. Seria impossível listar aqui o que se antepõe à Eucaristia, tamanhã a criatividade aliada a desobediência: músicas barulhentas e muitas vezes heréticas, teatros, danças, confraternizações com "a pessoa que está do seu lado", etc... etc.. etc... E Deus? Se perdeu em meio a tanta criatividade...

"A liturgia não se tornará nova, pessoal e verdadeira, através de invenções de palavras e brincadeiras banais, mas sim pela coragem dos que se põe a caminho para alcançar o Imenso; aquilo que, através do rito, desde sempre nos precedeu e que nós nunca conseguiremos apanhar." (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 126, ed. Paulinas).

Um outro aspecto levantado pela professora Cristina diz respeito ao silêncio: "A própria Liturgia tem na sua sequência uma série de momentos de silêncio, que não são espaços vazios de tempo, mas espaços de tempo repletos da Presença. Ao preencher estes momentos com músicas ou palavras supérfluas, encobrimos o Essencial".

E como as músicas têm preenchido a liturgia... Músicas tem substituido até trechos que não poderiam ter suas letras alteradas, como o Glória e o Pai-Nosso! Ou ainda, quantas músicas são cantadas nas Missas com letras absolutamente heréticas! Cria-se até Missas para agradar gostos específicos, eu mesmo já tive a infeliz experiência de assistir a uma Missa Heavy-Metal.

Prova de que o essencial, Cristo, se perdeu é o fato de ser muito comum alguém afirmar que prefere essa ou aquela Missa por que "a banda é boa" ou o "padre é mais animado". Será que é isso que deve nos atrair na liturgia?

Cabe registrar aqui mais algumas das sempre sábias palavras do então Cardeal Ratzinger:

"O silêncio [na liturgia] deve ser um silêncio pleno, mais do que apenas a ausência de palavra e de ação. O que nós esperamos da liturgia é precisamente que ela nos dê tal silêncio positivo - o silêncio que não é apenas uma pausa, cheia de pensamentos e desejos, mas sim o momento de contemplação, que nos ofereça paz interior, que nos deixe respirar e que descubra o essencial que se encontra oculto. Por isso mesmo é impossível 'fazer' simplesmente silêncio, prescrevê-lo como uma outra ação. Não é por acaso que hoje se procuram tantos exercícios de meditação: é o surgimento de uma necessidade humana que não encontra satisfação na forma atual da liturgia" (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 154, ed. Paulinas).

Por fim, mais do mesmo para fechar:

"Cada vez menos é Deus que se encontra em destaque, cada vez mais importância ganha tudo o que as pessoas aqui reunidas fazem e que em nada se querem submeter a um 'esquema prescrito'." (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 59, ed. Paulinas).

quarta-feira, 18 de junho de 2008

De joelhos!

Diante de 70 mil pessoas, o papa Bento XVI fez história domingo durante a celebração de uma missa em Brindisi (...) No momento da comunhão, o pontífice restaurou o costume de entregar a hóstia consagrada aos fiéis ajoelhados.

Quando os católicos comemoraram e os modernistas estrebucharam pela eleição de Joseph Ratzinger como sucessor de João Paulo II, sabiam bem o que estavam fazendo!

Depois de liberar a celebração da Missa de São Pio V, o papa Bento XVI trabalha agora na restauração da comunhão de joelhos. Leia a notícia completa!

Apenas ressaltando que, ao contrário do que afirma a notícia, o papa não está exatamente restaurando a comunhão de joelhos porque ela nunca foi abolida. Ainda é a forma ordinária, infelizmente o que era pra ser uma excessão - a comunhão de pé e na mão - virou regra (como outras coisas no pós-concílio...).

Não encontrei a homilia do papa onde ele teria afirmado que vê urgência no retorno da comunhão de joelhoes e na boca. Mas se ele (ainda) não afirmou isso realmente, já tem dado o exemplo na prática! Visto que na Solenidade de Corpus Christi Bento XVI fez o mesmo: pra quem comungou com ele, de joelhos e diretamente na boca! Fotos abaixo.

E podem anotar, o próximo passo é restaurar a posição do altar; incentivando que a Missa seja celebrada "versus Deum" novamente!

Tudo isso faz parte de um dos compromissos principais do pontificado de Bento XVI, interpretar e aplicar corretamente o Concílio Vaticano II (o que inclui uma reforma litúrgica realmente de acordo com o que pediu o Concílio).


Na Missa de Corpus Christi - 22/05/2008:







Na Missa de sua visita pastoral a Brindisi (Itállia) - 14/06/2008:






Na Missa de sua visita pastoral a Santa Maria di Leuca (Itállia) - 15/06/2008:




segunda-feira, 16 de junho de 2008

Diga-me com quem andas...

O senhor Orlando Fedeli, fundador da Associação Cultural Montfort, na ânsia de atacar o inatacável - ou seja, um Concílio legítimo da Igreja Católica - deixa evidente mais uma vez por qual "exército está lutando e pra onde está mirando sua espada" (pra usar expressões caras ao mesmo).

Como costuma fazer em suas análises do Concílio Vaticano II, se utiliza de declarações de hereges modernistas para tentar provar o quão daninho teria sido o referido Concílio para a vida da Igreja.

Enquanto bispos e teólogos de reconhecida ortodoxia defendem o Concílio e lutam por uma interpretação correta do mesmo, isso sem falar nos papas, Orlando Fedeli prefere colher opiniões de modernistas para fundamentar seus ataques à Igreja (basta uma lida atenta do seu site para verificar que ele, de fato, acaba atacando a Igreja e sua hierarquia).

Sobre o ocorrido, remeto-vos a uma lúcida análise feita por Jorge Ferraz em seu blog: "Quando os hereges são seguidos..."

terça-feira, 10 de junho de 2008

Castidade e fidelidade - a melhor forma de combater a AIDS


VATICANO, 30 Mai. 08 / 07:00 pm (ACI).- Em uma mensagem dirigida ao novo Embaixador de Uganda ante a Santa Sé, Nyine S. Bitahwa, o Papa Bento XVI elogiou a política para prevenir a transmissão do HIV / AIDS do país africano que, contrariando as imposições da ONU que exigem promover o sexo livre e o preservativo, obteve o índice mais bem-sucedido de redução da difusão da pandemia mediante a promoção da fidelidade e a abstinência.

No discurso escrito que entregou esta manhã, o Pontífice elogia a Uganda "os frutos nos setores da educação, o desenvolvimento e a sanidade, sobre tudo na luta contra o AIDS, assim como a atenção emprestada aos afetados e a afortunada política de prevenção apoiada na continência e a promoção da fidelidade no matrimônio".

O Papa elogia também a Uganda pela "culminação do esforço para formalizar acordos de paz que põem fim a longos anos de guerra marcados por uma violência cruel e insensata" e auspicia que "todos os refugiados retornem logo a seus lares para reatar uma existência pacífica e produtiva".


Uganda prova na prática que a Igreja Católica - como sempre, diga-se - está correta em rejeitar distribuição massiva de preservativos como forma de combate à transmissão da AIDS.

No fundo, distribuir preservativos é como dizer: "Façam sexo à vontade! Não se respeitem, não respeitem seus esposos, seu matrimônio, nem as pessoas ao seu redor. Façam sexo livremente!"

Não faltam aqueles que afirmam que essa postura da Igreja é loucura, chegam até a afirmar que Ela terá de prestar contas das vidas que se perdem por terem se contaminado com o HIV.

Não percebem que a orientação da Igreja Católica contra o preservativo é consequência de seu ensino sobre a castidade e a fidelidade matrimonial. Sexo só após o casamento. Após o casamento, fidelidade. Simples!

Sem sexo pré-matrimonial, sem HIV (uso de drogas injetáveis, erro em transfusão de sangue, etc., são outros problemas). Fidelidade conjugal, sem HIV. É a totalidade da moral católica sobre o tema que seus críticos não querem ver. Ou fingem não ver...

Além do mais, quem em nada está preocupado com castidade e fidelidade matrimonial, será que terá escrupulos em utilizar preservativos porque a Igreja o proíbe? Se esses realmente atentassem para o que Ela ensina, estariam se preservando para o matrimônio e seriam fiéis quando nele chegassem.

Castidade e fidelidade tem sido a tônica da campanha de combate a AIDS em Uganda. E esse tem sido o país mais bem sucedido na luta contra essa doença!

Que o mundo e a ONU aprendam com este exemplo!

Eis abaixo um cartaz em Uganda:



"Sex can wait, but my future can't - Abstain and avoid HIV/AIDS"


"Sexo pode esperar, meu futuro não pode - Abstenha-se e evite HIV/AIDS"






quinta-feira, 5 de junho de 2008

Pedidos dos filhos

Pedidos dos filhos

Dom Orlando Brandes - Arcebispo de Londrina


Os filhos pedem a seus pais e educadores vinte solicitações.

1. Não tenham medo de ser firmes comigo. Sua firmeza me dá segurança.

2. Não me tratem com excesso de mimo. Nem tudo o que eu peço me convém.

3. Não me corrijam na frente de outras pessoas. Isso me revolta.

4. Não permitam que eu forme maus hábitos. Dependo de vocês para saber o que é certo e o que é errado.

5. Não façam promessas apressadas. Sinto-me mal quando as promessas não são cumpridas.

6. Não me sufoquem com suas preocupações. Eu também preciso aprender com o sofrimento e com os erros.

7. Não sejam falsos comigo. A falsidade faz eu perder a fé em vocês.

8. Não me incomodem com ninharias. Irei fazer-me de surdo.

9. Não dêem a impressão de serem perfeitos, infalíveis. O choque será muito grande quando eu descobrir seus defeitos.

10. Não deixem sem respostas minhas perguntas. Do contrário, deixarei de fazê-las e buscarei informações em outros lugares.

11. Não se sintam humilhados ao ter que pedir desculpas. O perdão me aproxima de vocês.

12. Não digam que minhas preocupações e problemas são tolices. Tentem compreender-me. Ficarei mais sereno.

13. Não esqueçam que estou crescendo e mudando rapidamente. Tentem acertar o passo comigo.

14. Não me comprem presentes. O melhor presente é a presença de vocês. Com vocês sinto-me seguro, forte, amado.

15. Acolham-me desde a fecundação, alimentem-me com aleitamento materno, dêem-me colo, toquem-me porque preciso de tudo isto para crescer saudável e equilibrado.

16. Preciso de um pai forte e amigo, de uma mãe equilibrada e feliz. Seu jeito de ser é que fica marcado em mim. Poderei esquecer suas palavras, não esquecerei seus gestos.

17. Não imponham nem direcionem minha profissão e vocação. Podem aconselhar-me, mostrar-me suas razões, mas deixem-me a liberdade de escolher.

18. Se vocês se amam eu me sinto amado por vocês. Se vocês brigam, não dialogam, não se perdoam, eu me sinto um órfão de pais vivos.

19. Porque vocês foram fracos no bem, eu agora sou forte no mal. Se vocês são pais despreparados eu cresço desequilibrado.

20. Se vocês não me elogiarem, se me castigarem injustamente, se não me ensinarem a rezar, se satisfizerem todos os meus desejos, vocês estragam minha vida.

Os filhos aprendem imitando. Daí a necessidade do casal se querer bem e dar bom exemplo. Dizia um filho aos pais: "peço que vocês me amem quando eu não mereço, porque é aí que eu mais preciso ser amado." Nada disso é fácil. O nascimento dos filhos traz grandes mudanças na família. Os cônjuges esquecem de ser esposos, trocam os papeis, e começam a ser somente pais. Apegar-se aos filhos e esquecero cônjuge é um perigo. O primeiro amor na família é sempre o amor conjugal, depois o amor filial.

Além disso, temos pais agressivos e pais permissivos, mas precisamos de pai e mãe participativos. Os pais apegados aos filhos sofrem demais quando eles devem deixar o lar. Os desequilíbrios dos filhos levam ao desajuste do casal e vice-versa. Os pais conscientes tratam os filhos conforme a idade que eles têm. É preciso saber mudar de marcha. Pais ajustados, filhos equilibrados.

Um filho escreveu para seus pais: "Eu sou forte no mal porque vocês foram fracos no bem. Por isso estou preso". Os pais nunca podem abdicar do diálogo, devemestar abertos em buscar soluções e aceitar ajuda. Ninguém é infalível. Os pais aprendem com os filhos, mas devem sempre colocar limites e apresentar valores. Lares sem disciplina criam filhos folgados e onipotentes que se tornam delinqüentes. É a tirania dos filhos sobre os pais.

Temos hoje a "família filiarcal" que sucedeu à família matriarcal e depois à patriarcal. Filiarcalismo é fazer dos filhos pequenos deuses. Eles não ajudam em nada nos trabalhos da casa, deixam roupas sujas em cada canto, só comem o que querem, dominam os pais que se tornam seus escravos e reféns. Pais permissivos são mais prejudiciais que os autoritários.

Os filhos emitem sintomas que sinalizam a presença de problemas familiares. Quando os pais vão mal os filhos entram em ansiedade. Hoje a grande tentação é resolver as crises com o "divórcio fácil". É preciso crer nas soluções, na reorganização da família. O filho problema pode tornar-se o melhor. A ovelha negra se torna uma benção, quando recorremos a Deus, ao perdão, ao diálogo, à disciplina. Quem olha as soluções não cai nas acomodações. Os heróis se forjam nas carências e crises.

A arte de ser bons pais começa já no útero materno. A preparação para a missão de ser pai e mãe é assunto do namoro e noivado. Pais despreparados, filhos desequilibrados; pais ausentes, filhos delinqüentes; pais permissivos, filhos onipotentes; pais omissos, filhos rebeldes. Carregamos dentro de nós a criança que fomos no passado. Vale a pena investir no casal para que os filhos cresçam sadios, seguros e amorosos. A família é a esperança da sociedade e o futuro do mundo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

São Francisco de Assis!


Hoje é dia de São Francisco de Assis!


São Francisco foi o primeiro santo que tive "contato", que li a biografia, ao retornar à Igreja. Ele é, na minha opinião, o maior exemplo de seguimento de Nosso Senhor que já existiu!


Segue uma pequena biografia de São Francisco.


________________________________


São Francisco nasceu em 1181/1182 em Assis na Itália, foi batizado com o nome de Giovanni di Pietri, mas seu nome foi mudado pouco tempo depois para Francisco, pois seu pai Petri di Bernardone era comerciante e viajava muito a França, mudou o nome do filho em homenagem ao local que fazia bons negócios.

Em 1198 acontece um conflito em Assis, entre a nobreza e os comerciantes. Os nobres se refugiam em Perusa uma pequena cidade próxima de Assis, onde São Francisco ficou preso por um ano até o ano de 1204. Em Perusa também estava a família de Clara.

Ao voltar para Assis, São Francisco doente começa sua conversão gradual, se dedica a dar esmolas e oferece até suas roupas aos pobres, tem visões e começa a desprezar o dinheiro e as coisas mundanas. Até que ele se encontra com um leproso, lhe dá esmola e um beijo, e este acontecimento marcou tanto a vida dele que, dos muitos fatos ocorridos em sua vida, este foi o primeiro que entrou em seu Testamento, "pois o que antes era amargo se converteu em doçura da alma e do corpo".

Outros encontros afirmaram ainda mais a vocação de São Francisco, nas ruínas da da igraja São Damião recebeu do crucificado o mandato de restaurar a Igreja. Obediente ao mandato, São Francisco pôs-se logo a trabalhar. Reconstruiu três pequenas igrejas abandonadas: a de São Damião, a de Santa Maria dos Anjos e a de São Pedro.

Seu pai, envergonhado do novo gênero de vida adotado por Francisco, queixou-se ao bispo de Assis da prodigalidade do filho e, diante do prelado, pediu a Francisco que lhe devolvesse o dinheiro gasto com os pobres. A resposta foi a renúncia à vultosa herança: despindo, ali, suas vestes, Francisco exclamou: "... doravante não direi mais pai Bernardone, mas Pai nosso que estás no céu..."

A partir desse momento passa a viver na pobreza, e inicia a ordem franciscana, cresce o número de companheiros, 1209 já são 12. Cria uma regra muito breve e singela, que o papa Inocêncio III aprova em 1210, e cujas diretrizes principais eram pobreza e humildade, surge assim a Fraternidade dos Irmãos Menores, a Primeira Ordem.

No Domingo de Ramos de 1212, uma nobre senhora, chamada Clara de Favarone, foi procurar Francisco para abraçar a vida de pobreza. Alguns dias depois, Inês, sua irmã, segue-lhe o caminho. Surge a Fraternidade das Pobres Damas, a Segunda Ordem. Aqueles que eram casados ou tinham suas ocupações no mundo e não podiam ser frades ou irmãs religiosas, mas queriam seguir os ideais de Francisco, não ficaram na mão: por volta de 1220, Francisco deu início à Ordem Terceira Secular para homens e mulheres, casados ou não, que continuavam em suas atividades na sociedade, vivendo o Evangelho.

A Ordem Francisca cresceu com o passar dos anos. Em 1219 houve uma grande expansão para a Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos e França. Neste mesmo ano São Francisco vai em missão para o Oriente. Durante sua ausência, vigários modificam algumas regras da Ordem e no mesmo ano de 1219 São Francisco se demite da direção da Ordem.

Com o crescimento da Ordem, quase 5.000 frades em 1221, uma nova regra foi escrita por São Francisco em 29 de novembro de 1223 que foi aprovada pelo papa Honório. É a que vigora até hoje.

Em 1224 no dia 17 de setembro São Francisco recebeu as chagas de Jesus crucificado em seu próprio corpo, este fato ocorreu no Monte Alverne, um dos eremitérios dos frades.

Os últimos escritos de São Francisco são entre 1225 e 1226, dentre eles o Cântico das Criaturas e o Testamento. Nestes mesmos dois anos, Francisco vai a vários lugares da Itália para tratar de suas vistas. Passa por diversas cirurgias. Morre aos 03 de outubro de 1226, num sábado.

Morreu nu aquele que começou a vida de conversão nu na praça de Assis diante do bispo, do pai e amigos. Morreu ouvindo o Evangelho de João, onde se narra a Páscoa do Senhor, aquele que recebeu os primeiros companheiros após ouvir o Evangelho do envio dos apóstolos. Foi sepultado no dia 04 de outubro de 1226, Domingo, na Igreja de São Jorge, na cidade de Assis.

São Francisco de Assis foi canonizado em 1228 por Gregório IX e seu dia é comemorado em 04 de outubro.

Em 25 de maio de 1230 os ossos de São Francisco foram levados da Igreja de São Jorge para a nova Basílica construída para ele, a Basílica de São Francisco, hoje aos cuidados dos Frades Menores Conventuais.

domingo, 2 de setembro de 2007

Grito dos Excluídos

Dia 07 de setembro acontece o "Grito dos Excluídos". A manifestação é projeto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como consta no número 129 do Projeto Rumo ao Novo Milênio: “O Grito dos Excluídos será celebrado anualmente, em nível nacional, no dia 7 de setembro, retomando preferencialmente o tema da Campanha da Fraternidade” (PRNM, CNBB, pág. 44).

Visitando o site do "Grito dos Excluídos", notamos que desse evento apoiado pelos Bispos Brasileiros (não todos obviamente, há heróicas excessões) também participam grupos que de católicos não tem absolutamente nada. Podemos citar o MST (organização comunista especializada em invadir propriedades alheias), a Marcha Mundial das Mulheres (grupo que apóia o lesbianismo e o aborto), a ONG feminista SOF, e o site Adital (site premiado pela CNBB que defende teses comunistas já condenadas pela Igreja e tem entre seus principais articulistas Leonardo Boff, o ex-frei Betto e o monge-de-camdoblé Marcelo Barros).

É um absurdo que a CNBB se una a tais grupos nesse evento que pode ser qualquer coisa, menos católico.

Mas, o "Grito dos Excluídos" é definido em seu site como "uma grande manifestação popular para denunciar todas as situações de exclusão e assinalar as possíveis saídas e alternativas".

E se é para "denunciar todas as situações de exclusão", creio que muitos outros excluídos - excluídos inclusive pela CNBB e pelo "Grito" - poderiam e deveriam dar seu grito...

  • Nosso Senhor Jesus Cristo, excluído do "credo dos excluídos"(* );
  • os católicos excluídos do conhecimento da Verdade, que vagam perdidos a buscá-la, mas sem encontrá-la na maioria das paróquias, pois estão contaminadas pelo relativismo da Teologia da Libertação;
  • os inocentes criminosamente excluídos precocemente do ventre materno e que não terão lugar nessa manifestação, pois organizações abortistas tomaram parte do "Grito";
  • os católicos excluídos de uma boa e santa confissão, pois um grande número de sacerdotes agem mais como psicólogos do que como administradores do Sangue de Cristo, parecem inclusive nem crer mais no sacramento que ministram (particularmente tenho um triste histórico de confissões completamente inválidas por defeito de forma, ou seja, sacerdotes que não dizem o mínimo necessário para a validade do sacramento: "Eu te absolvo dos teus pecados");
  • os católicos excluídos de uma celebração digna da Santa Missa conforme o Missal promulgado pelo Papa Paulo VI, pois é uma missão quase impossível encontrarmos uma Missa celebrada dignamente e conforme prescreve as rubricas do referido Missal;
  • os católicos excluídos da possibilidade de ter acesso a uma Santa Missa celebrada em Latim, conforme o expresso desejo do Concílio Vaticano II, de João Paulo II e de Bento XVI;
  • os católicos excluídos da celebração da Santa Missa conforme o Missal promulgado pelo papa São Pio V, cuja celebração foi completamente liberada por Bento XVI através do Motu Proprio Summorum Pontificum, infelizmente no Brasil esse documento vem sendo silenciado e as vezes até ironizado por boa parte do clero;
  • os católicos excluídos de um conhecimento claro da Fé Católica, pois a catequese de crianças, jovens e adultos está completamente infestada de modernismo e Teologia da Libertação;
  • os católicos excluídos de uma Quaresma piedosa e permeada de meditações sobre a Paixão de Nosso Senhor, pois no Brasil é mais importante tratarmos de amenidades terrenas do que do Sacrifício do Calvário, é mais importante preocupar-se com a devastação das Amazônia do que com a devastação que as almas sofrem pela falta da Verdade, pela falta de Cristo;
  • os católicos excluídos de uma vida paroquial normal, pois precisam se deslocar por grandes distâncias para ter uma boa confissão e/ou uma boa Missa;
  • as famílias tradicionais praticamente excluídas de nossa sociedade incentivadora da promiscuidade, do homossexualismo e do divórcio;
  • ...

Quem desejar, comente, deixe seu grito que incluirei na lista.


_____________________________________

(* ) Credo sugerido pela CNBB para as celebrações do "Grito dos Excluídos":

8. Proclamação de Fé e Esperança

Cremos em Deus, coração materno, criador do Céu e da Terra.
Cremos na força do mutirão e na força profética do povo organizado
Cremos na força dos pequenos que inventam e recriam, pois nosso Deus derruba do trono os poderosos.
Cremos num “trem de esperanças” quando o povo grita nas ruas.
Cremos no grito das mulheres exigindo respeito e dignidade.
Cremos no grito da criança, do adolescentes dos jovens.
Cremos no pão partilhado, nas alternativas de economia popular solidária,
Cremos no povo que resgata suas raízes. Por isso, cremos na mudança que vem dos pequenos e excluídos.
Creio em todos e em todas nós aqui presentes.
Cremos na comunhão fraterna entre Credos e Igrejas, acreditando que o ecumenismo vem na prática.
Cremos que as lutas de nossas comunidades e organizações são sementes do presente para germinar árvores de vida em abundância, e alegria no rosto de nossa gente!

sábado, 18 de agosto de 2007

Perguntar não ofende, mas pode converter

Há pouco tempo eu terminei de ler o excelente livro "Todos os caminhos vão dar a Roma", escrito por Scott Hahn e sua esposa Kimberley Hahn. Os autores são estudiosos da bíblia e tinham posições de destaque na Igreja Presbiteriana dos EUA. Suas conversões são fruto de estudos sobre a Bíblia e os Padres da Igreja. Scott se converteu primeiro, causando uma grande decepção à esposa; mas ela, algum tempo depois, também acabou se rendendo à clareza da Fé Verdadeira e se converteu. A emocionante e edificante história desse casal pode ser conhecida no livro citado acima, leitura que eu recomendo vivamente.

Algumas das objeções que os protestantes fazem a Fé Católica são refutadas por Scott Hahn. Especialmente interessante é o momento em que ele começa a questionar a doutrina da "Sola Scriptura" (= somente a Bíblia). Hahn, desesperado por não conseguir encontrar fundamentos para essa doutrina (ponto chave de todo o protestantismo), pergunta a alguns de seus antigos professores e amigos: Qual é o fundamento da verdade?

Resposta unânime: A Bíblia, claro!

Ao que Hahn responde: Então por que São Paulo afirma à Timóteo que a Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade?

Não obteve respostas satisfatórias...

Gostei da idéia e fiz o teste: cheguei em um antigo colega de trabalho, que é metodista, e fiz a mesma pergunta... A resposta não poderia ser outra: A Bíblia! Respondi o mesmo que Scott Hahn, citando I Timóteo 3,15. Ele ainda não me trouxe uma resposta...

Os protestantes afirmam que a Bíblia é a única fonte de fé e moral (Sola Sciptura). Por outro lado, nós católicos cremos que nossa fé se fundamenta num tripé formado pela Bíblia, Tradição e Magistério.

Fica a dica para o caso de um debate com protestantes, ao invés de nos desdobrarmos para fazê-los entender o uso de imagens, intercessão dos santos, Nossa Senhora, etc., pergunte: Qual é o fundamento da verdade?. Depois, ele que prove com a própria Bíblia, a doutrina herética da Sola Scriptura.

Nesse sentido, recomendo a leitura do artigo "Cinco perguntas a que nenhum protestante consegue responder", de Carlos Ramalhete.

Parece até um paradoxo, mas justamente a Bíblia é o ponto fraco dos protestantes!

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Liturgia e Vida

O tempo anda um pouco curto, por isso essas duas semanas sem postar nada aqui no blog. Também gostaria de lembrar que esse blog não trata exclusivamente de liturgia, mas esse tema tem predominado pela publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum.

Por falar nesse documento, a Agência Fides, da Congregação para Evangelização dos Povos, publica um interessante dossiê escrito pelos padres Nicola Bux e Salvatore Vitiello. O estudo demonstra que, de fato, a celebração da Missa de São Pio V nunca foi abolida.

Uma versão em português pode ser lida no próprio site da Agência Fides.

Aproveito também para recomendar novamente a leitura de um artigo escrito pelos mesmos padres autores desse dossiê, o artigo pode ser lido aqui.



Semana passada em um discurso na inauguração da 16ª Semana Nacional de Liturgia, o Cardeal Cipriani afirmou que o Papa Bento XVI tem uma firme convicção de que a liturgia "deve recuperar a beleza de sua expressão".

De fato, em muitos lugares atualmente a Liturgia Católica é celebrada de forma pobre e indigna. E quando digo "pobre", obviamente que não me refiro à riqueza material de paramentos e vasos sagrados; um sacerdote não precisa utilizar paramentos feitos com fios de ouro para estar belo e digno de celebrar os Santos Mistérios. Realmente a beleza da Santa Missa precisa ser recuperada, pois foi covardemente roubada por padres modernistas que não tratam dignamente o Corpo de Cristo!


_____________________________


Como eu disse acima, esse blog não é exclusivamente sobre liturgia.

Nesse sentido, gostaria de registrar aqui o caso de Guadalupe Lovera, uma menina que foi salva de ser abortada em uma clínica nos Estados Unidos. Ela, hoje com 12 anos, escreveu uma carta e gravou um vídeo externando sua gratidão aos padres da Priests for Life (Padres para a Vida). Essa associação luta contra o aborto nos Estados Unidos e conseguiu, já na clínica, a convencer a mãe de Guadalupe a não abortar!

A notícia completa, a carta e o vídeo podem ser vistos no site da Agência de notícias ACIdigital.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Versus Deum per Iesum Christum


Versus Deum per Iesum Christum


Publico abaixo artigo de Rafael Vitola Brodbeck tratando da posição do sacerdote durante a celebração da Santa Missa.

Interessante a referência que o articulista faz ao "clericalismo" existente na Missa celebrada versus populum. Essa referência também foi feita pelo então Cardeal Jospeh Ratzinger em seu livro "Introdução ao Espírito da Liturgia", afirmando que o destaque que se dá ao sacerdote quando celebra voltado para o povo o torna o ponto principal de toda a Missa: "[a mudança na posição do sacerdote e do altar] levou a uma clericalização jamais vista. O sacerdote - ou melhor, o agora chamado presidente da celebração - torna-se o ponto de referência do todo. Tudo depende dele. É necessário vê-lo, participar na sua ação, responder-lhe; tudo assenta na sua criatividade. (...) Cada vez menos é Deus que se encontra em destaque, cada vez mais importância ganha tudo o que as pessoas aqui reunidas fazem e que em nada se querem submeter a um 'esquema prescrito'. O sacerdote que se volta para a comunidade forma, juntamente com ela, um círculo fechado em si. A sua forma deixou de ser aberta para cima e para frente; ela encerra-se em si própria." (Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia - Ed. Paulinas, pag 59 - destaque meu)

Particularmente sou um entusiasta da Missa celebrada versus Deum, pois fica muito mais forte o sinal de que ocorre algo sagrado, um sacrifício. Como explica Rafael em seu artigo, o sacerdote volta-se para Deus para representar o povo nas orações e no oferecimento do sacrifício do Corpo e Sangue de Cristo; e volta-se para o povo quando proclama o Evagelho e faz a homilia, representando Deus que ensina seus filhos.


_____________________________________



Missa de frente para Deus - versus Deum - também no rito novo?

Por Dr. Rafael Vitola Brodbeck


Muitos pensam que o Missal de 1970, o Novus Ordo, instituindo a nova forma de celebrar a Missa romana, modificou a direção a qual deve estar voltado o sacerdote celebrante. Ledo engano, a posição do ofertante foi mantida a mesma. É o que informam recentes documentos da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como o próprio Papa Bento XVI, à época Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em entrevista por ocasião do lançamento de seu livro "Introdução ao Espírito da Liturgia". Também das próprias rubricas do Missal Romano de Paulo VI encontramos as informações que confirmam tal ensino: o sacerdote deve, segundo tais textos, durante a Liturgia Eucarística, “voltar-se para o povo” durante alguns atos; isto significa que, se deve voltar-se ao povo, é porque antes estava voltado ad Orientem. “Estes avisos que em certos momentos o sacerdote esteja ‘voltado para o povo’ seriam supérfluos, se o sacerdote durante toda a celebração ficasse atrás do altar e frente ao povo.” (RUDROFF, Pe. Francisco. Santa Missa, Mistério de nossa Fé. 1996, Serviço de Animação Eucarística Mariana, Anápolis, com apresentação de Dom Manoel Pestana Filho, Bispo Diocesano de Anápolis, p. 110, nota 37; cf. ELLIOTT, Mons. Peter. Cerimonies of the Modern Roman Rite, 1995, Ignatius Press, San Francisco, p. 23)

Isso, aliás, não é nenhuma surpresa, uma vez que nunca a posição ad Orientem foi expressamente proibida por algum decreto, nem esse foi o desejo dos Padres do Concílio Vaticano II, autor da reforma litúrgica. Outrossim, essa é a forma histórica de oferecimento da Missa, observada inclusive pelos ritos orientais.

Mesmo assim, ainda que a norma seja a manutenção da direção do sacerdote ad Orientem, também conhecida como versus Deum foi permitida pela reforma a posição versus populum, i.e., voltado para o povo, atrás do altar, forma, aliás, que se disseminou mundialmente, tornando-se bastante popular, por força da Instrução Geral do Missal Romano.

Uma nota publicada, em 1993, pela Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos , em seu boletim Notitiae, reafirmou o valor de ambas as opções, celebração versus populum ou versus Deum, de modo que quaisquer dúvidas devem ser dissipadas.

O motivo da celebração versus Deum, ad Orientem, é principalmente o reforço do caráter do sacerdote como sendo o próprio Cristo, seu sacerdócio unido, pela Ordem, ao de Nosso Senhor e Salvador. Assim, “de costas para o povo”, o padre está, na verdade, à sua frente, como líder, como aquele que, em nome da humanidade, mostra-se diante de Deus, e, agindo Cristo por Ele, oferece um sacrifício. Virando-se para os fiéis nos momentos oportunos, é o representante de Deus que nos dá a bênção. E, desse modo, por ser Cristo Deus e Homem ao mesmo tempo, o padre, se é Seu ministro, age ora representando a humanidade ora a divindade, e a Única Pessoa de Jesus, em Suas duas naturezas, mediante o sacerdócio dos que Lhe são especialmente consagrados pelo sacramento da Ordem, oferece Seu sacrifício por nossos pecados.

“(...) a imolação incruenta, por meio da qual, depois de pronunciadas as palavras da Consagração, Jesus Cristo torna-se presente sobre o altar no estado de Vítima, é levada a cabo somente pelo sacerdote, enquanto representante da Pessoa de Cristo, e não enquanto representante da pessoa dos fiéis.” (Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei)

Além do quê, na Missa, mesmo versus populum, sempre estamos “de costas” uns para os outros. Que mal há no padre também ficar?

Mais ainda, ele não está simplesmente dando as costas ao povo, mas virando-se, junto com ele, para a mesma direção. O sacerdote, na Missa versus Deum, posiciona-se exatamente com o restante dos fiéis: todos miram o mesmo alvo, todos olham para o mesmo lugar, todos estão alinhados, como um verdadeiro povo, à frente do qual está o sacerdote, seu líder. Interessante é observar que os setores liberais e progressistas, defendendo a exclusividade da Missa versus populum, acabam criando um clericalismo que eles mesmos criticam, opondo sacerdote e fiéis uns aos outros.

Além disso, por óbvio centra a atenção do povo no sacerdote e a atenção do sacerdote no povo, ao invés de ambos centrarem-se em Deus. O culto versus populum acaba, na prática, favorecendo o antropocentrismo. Evidentemente, nem todos os que celebram versus populum assim o fazem, pois é perfeitamente possível a Missa externamente voltada para o povo e, ao mesmo tempo, espiritualmente centrada em Deus. “Quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio de Jesus Cristo].” (Cardeal Joseph Ratzinger, A introdução do decano do Sacro Colégio ao livro de Uwe Michael Lang, in 30 Dias, disponível em http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=3510) Entretanto, ainda que a versus populum não seja, em si, antropocêntrica ou negadora da absoluta centralidade de Cristo na Eucaristia, não há como negar que a celebração versus Deum favorece, pela posição do sacerdote, a centralização da Missa em Deus.

Sem dúvida que em qualquer posição, o padre olha para Deus. Mas a posição versus Deum é mais simbólica nesse sentido. Até porque, por tal argumento, deveríamos, então, em vez de olhar para o altar, olharmos todos uns para os outros. O padre não fica "de costas, propriamente, mas "olhando na mesma direção que nós".

Posição esta que é tradicional não só no rito romano (seja o tradicional, seja o novo - apesar de, nesta última forma, não ser tão comum), como nos ritos orientais (e mesmo nos demais ritos latinos).

“Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-conciliares. A mais importante delas é a Institutio generalis Missalis Romani, a Introdução Geral ao novo Missal Romano, de 1969, onde, no número 262, se lê: “O altar maior deve ser construído separado da parede, de modo a que se possa facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na direção do povo [versus populum]”. A introdução à nova edição do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas, no final, acrescentou o seguinte: “Isso é desejável sempre que possível”. Esse acréscimo foi lido por muitos como um enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora haveria uma obrigação geral de construir - “sempre que possível” - os altares voltados para o povo. Essa interpretação, porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” [é desejável] não exprime uma obrigação (...).” (Ratzinger, op. cit.)

“Por último, penso que se o sacerdote rezasse, em algumas ocasiões, a Liturgia Eucarística versus Deum – algo perfeitamente possível segundo as normas atuais –, isso também ajudaria a perceber qual é a orientação espiritual da Liturgia – em direção a Deus, o que não significa nenhum desprezo do Povo. Aliás, alguém diz para a pessoa do banco da frente: ‘você está de costas para mim’?; ou que os noivos, no sacramento do Matrimônio, estão de ‘costas para o povo’?” (BELLO, Joathas, Algumas reflexões sobre a liturgia, disponível em http://ictys.blogspot.com/2005/10/algumas-reflexes-sobre-liturgia.html)

Em resumo, no Novus Ordo Missae, na forma de rito romano promulgada por Paulo VI, em uso na Igreja Ocidental desde então, pode o sacerdote, sem problema algum nem oposição dos superiores ou dos Ordinários, celebrar "de costas aos fiéis", na posição versus Deum, tradicional, própria, e muito mais rica dos pontos-de-vista teológico, histórico e mesmo espiritual. Longe de afastar os fiéis, essa prática só os faz crescer ainda mais na compreensão do mistério da Cruz, tornado presente em cada Santa Missa. Tomara essa posição do sacerdote seja revalorizada, para que o antropocentrismo dê lugar a quem de direito, ainda mais na Missa, Cristo Rei, que no altar, invisível e incruentamente, se imola ao Pai por nós. Mais elevados espiritualmente, melhores cristãos sairão os fiéis de uma Missa em que se observe até mesmo esse aparente detalhe da posição do celebrante: embora, substancialmente, a Missa seja a mesma, tal elemento acidental muito favorece a que tenhamos a correta apreensão da idéia de sacrifício, além de acrescentar à sacralidade do rito e à piedade de todos os que dela tomam parte, transmitindo a riqueza multissecular da Santa Igreja Católica.