quarta-feira, 20 de junho de 2007

O Latim - parte I

O verdadeiro horror que uma parcela considerável dos sacerdotes têm ao uso do Latim sempre me causou surpresa. Se é a língua oficial da Igreja, porque fugir tanto dela?

Falar em Missa em Latim, então, tornou-se praticamente uma blasfêmia!

Essa minha surpresa aumentava na proporção em que eu tomava conhecimento do grande apreço que o Magistério da Igreja teve e tem pelo Latim (vide citações abaixo). E aí a surpresa já começava a dar lugar a uma certa decepção...

Recentemente eu li uma biografia do papa Bento XVI escrita por Andrea Tornielli. Em um capítulo em que o autor analisa o pensamento do Cardeal Ratzinger sobre liturgia, ele cita um trecho em que o cardeal fala sobre o uso do Latim: "A linguagem da Mãe (a Igreja) se torna nossa; aprendemos a falar nela e com ela, de modo que as suas palavras se tornam, pouco a pouco, sobre os nossos lábios, as nossas palavras".

Uma perspectiva nova para a questão do uso do Latim se abriu diante dos meus olhos!

Devo amar e até aprender algumas orações em Latim por um motivo simples: é a língua de minha Mãe! Agrada-a muito que seus filhos saibam rezar em seu idioma, para que as palavras dela se tornem - como disse o Cardeal - "sobre os nossos lábios, as nossas palavras"!

Nesse momento penso, paralelamente, em tantos descendentes de estrangeiros que temos no Brasil. Será que têm pela língua nativa de seus pais ou avós o mesmo desprezo que muitos católicos têm pelo Latim? Como se sentiriam as mães italianas, japonesas, alemãs, que ouvissem de seus filhos palavras de desprezo pelo italiano, japonês, alemão? Nesse sentido, como será que a Igreja, nossa Mãe, se sente ao ver, por exemplo, um filho querido - um conhecidíssimo sacerdote - dizer em uma entrevista que é ignorante do idioma a ponto de que "se me mandarem falar latim, vou fazer: 'Au, au, au!'” ????

Assim, se é excelente que saibamos algumas orações em Latim para rezar com a Igreja, quanto mais não será melhor que a Santa Missa seja também em Latim! Toda a Família Católica reunida rezando e oferecendo à Deus o Sacrifício Perfeito em um mesmo e santo idioma.

Não tenho aqui a intenção de criticar absolutamente o uso do vernáculo, que é legítimo e tem seu valor, mas me entristece esse ódio que se criou ao uso do Latim.

Que bom seria se tivessemos naturalmente em nossas paróquias Missas sendo celebradas em Latim. Digo 'naturalmente' no sentido que isso ocorrese com naturalidade. Porque atualmente ocorre o oposto! Parece uma coisa do outro mundo querer o Latim e até gera uma tremenda polêmica a simples menção de se preferir a Missa em Latim ou, por parte de sacerdotes, de se querer celebrar assim a Missa.

O que está, definitivamente, em oposição ao querer da Igreja! Inclusive o Concílio Vaticano II jamais aboliu o uso do Latim na Missa.


Segue uma coletânea de textos do Magistério tratando do Latim.


“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana (...) só se deve celebrar a Missa em língua corrente [vernácula](...), seja excomungado”
(Concílio de Trento, Cânones sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, cânon 9).

“A Língua Latina é a língua própria da Igreja Romana” (Papa São Pio X, Encíclica Inter Pastoralis Officii).

“O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei, nº 53)

“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido, e onde houver caído quase em abandono, seja absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de novidade escreva contra o uso da Língua Latina nos sagrados ritos da Liturgia.” (Papa João XXIII, Encíclica Veterum Sapientia).

“Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 36, § 1)

“Providencie-se que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em Língua Latina as partes do Ordinário que lhes competem.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 54)

Faça-se a celebração eucarística em língua latina ou outra língua, contanto que os textos litúrgicos tenham sido legitimamente aprovados.” (Código de Direito Canônico, Cân. 928)

Missa se celebre quer em língua latina ou quer noutra língua, contanto que se usem textos litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com as normas do direito. Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.” (Instrução Redemptionis Sacramentum, nº 112)


“O que acabo de afirmar não deve, porém, ofuscar o valor destas grandes liturgias; penso neste momento, em particular, às celebrações que têm lugar durante encontros internacionais, cada vez mais frequentes hoje, e que devem justamente ser valorizadas. A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia com as directrizes do Concílio Vaticano II: exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua latina; sejam igualmente recitadas em latim as orações mais conhecidas da tradição da Igreja e, eventualmente, entoadas algumas partes em canto gregoriano. A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia”
(Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, nº 62).

4 comentários:

Marcelo disse...

Paz e bem.

Caríssimo Luís, o mesmo sacerdote que ridicularizou o uso do latim (creio que não o fez por mal, porém foi imprudente), da mesma maneira comete imprudências com sacramentais da Igreja (como água benta), entre outras imprudências já ouvidas em suas homilias.

Tinha tudo para levar um "puxão" de orelhas do Bispo de nossa Igreja, porém o mesmo parece muitas vezes estar em estado de plena letargia.

Pax.

Marcelo
Pro Catholica Societate

André Luís disse...

Não seria estado de plena "liturgia"?

Fabrício L. Ribeiro disse...

Caro Luís Henrique,

Meu pensamento a respeito do Latim na Liturgia, está em comunhão com o teu.

Parabéns pelo blog! Visitarei sempre.

Paz e Bem!

Maria disse...

:o...Como cumprir o IDE de Jesus?
Em latim? Cuidado irmãos isto parece mais uma espécie de "apartaid", segregação...
Jesus pregou entre as pessoas, enviou seus discipulos entre o povo, não tinham rituais em suas pregações...porque hoje se usa rituais? Ao estudar direito romano ouvi uma afirmação que hoje me parece bem real..."Ainda hoje, todo romano deseja no seu intimo dominar o mundo"...já não são os romanos natos mais, mas tambem os romanos pela fé...cuidado com a teologia da exclusão.
JESUS DEVE SER NOSSO EXEMPLO, NADA DEVE SER SUPERIOR A ELE.
No mais são criações da mente humana. De HOMENS que são pecadores e falhos.

Boa noite