quinta-feira, 12 de março de 2009

O ímpeto cego de uma repórter abortista

O site do jornal "O Globo" publicou uma reportagem de Cleide Carvalho sobre o caso de uma garotinha gaúcha de 11 anos que acaba de dar à luz a uma menina, numa caso semelhante ao ocorrido em Pernambuco. Mas com desfechos completamente diferentes! Provavelmente porque no caso ocorrido no sul do país não houve a perminiciosa influência das ONG's abortistas.

Leia a reportagem clicando aqui.

Chama a atenção o título da matéria: "Burocracia pode ter condenado menina de 11 anos estuprada em Iraí, no RS, a levar gravidez adiante".

O primeiro ponto que grita aos olhos é a afirmação de que a garotinha foi "condenada" a levar essa gravidez adiante.

Qual o motivo dessa "condenação"? Risco de vida? Não houve e o médico responsável afirma que as duas passam bem. Uma criança de 11 anos não compreende o que está acontecendo? Não parece ser esse o caso, a garota sabe muito bem a - utilizando uma expressão da própria - "relíquia" que tem em suas mãos. Dificuldades financeiras? Sempre aparece alguém que ajuda. E se for impossível, doa. Ao invés de matar a criança, entregue ela para uma instituição que a encaminhará para a adoação. Mas, segundo a família, a garota não quer nem saber dessa hipótese.

Mas ao ler a reportagem completa, nota-se facilmente que o texto não tem absolutamente relação nenhuma com o título! Pois na chamativa a repórter dá a entender que os responsáveis pela menina entraram com pedido para a realização do aborto, e não conseguiram por conta da burocracia. Mas vamos ver, pelo texto da própria repórter, que não foi nada disso que aconteceu!

A reportagem traz depoimentos do promotor Adriano Luís de Araújo e do delegado Antonio Maieron.

O primeiro afirma que "Em nenhum momento a discussão sobre aborto surgiu. Não tenho conhecimento de orientação médica, nenhum documento que diga que ela corre risco e que justifique o aborto, nem manifestação da família. Desconheço que alguém tenha pedido".

Na mesma linha, diz o delegado que "É uma gravidez de risco, mas a guardiã não tinha interesse, em nenhum momento chegou a falar em interromper a gravidez da menina. Ela ficou sabendo em dezembro, cobrou do marido e ele sumiu de casa. Ninguém se manifestou sobre aborto, talvez pelo estágio da gravidez, que entrava no quinto mês".

Ou seja, não houve burocracia ou desinformação nenhuma impedindo o aborto da criança no ventre de sua jovem mãe. Foi, nitidamente e conforme está registrado na própria reportagem de Cleide Carvalho, desejo dos responsáveis pela garota que essa gestação fosse levada adiante.

Corroborando isso, há ainda uma outra notícia no site G1. Nesssa reportagem está registrado o depoimento dos familiares afirmando que "a menina faz questão de cuidar da própria filha e descartam a possibilidade de encaminhamento para adoção. 'Nem dar (o bebê) ela não quer, diz que vai ser a relíquia dela, que ela mesma vai cuidar', conta a irmã de criação de 25 anos, que mora na mesma casa."

E o médico que realizou o parto e está acompanhado a garota garante que mãe e filha passam muito bem.

Gostaria realmente de enteder de onde a repórter Cleide Carvalho tirou a informação de que não houve um aborto por culpa da burocracia ou da desinformação. Não é isso que se depreende lendo a reportagem...

Muito mais do que apoiar a "opção" pelo aborto, essa repórter parece defender que tal procedimento deve ser obrigatório em casos como esse. O problema é que no ímpeto cego de defender tal coisa, a repórter se esqueceu até de manter a coerência entre o título e o texto de sua matéria.

CARTA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA

CARTA DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA

a propósito da remissão da excomunhão
aos quatro Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre


Amados Irmãos no ministério episcopal!

A remissão da excomunhão aos quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa Sé, por variadas razões suscitou, dentro e fora da Igreja Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito tempo não se tinha experiência. Muitos Bispos sentiram-se perplexos perante um facto que se verificou inesperadamente e era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas tarefas actuais da Igreja. Embora muitos Bispos e fiéis estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma vida de fé no nosso tempo. Ao contrário, alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio: desencadeou-se assim um avalanche de protestos, cujo azedume revelava feridas que remontavam mais além do momento. Por isso senti-me impelido a dirigir-vos, amados Irmãos, uma palavra esclarecedora, que pretende ajudar a compreender as intenções que me guiaram a mim e aos órgãos competentes da Santa Sé ao dar este passo. Espero deste modo contribuir para a paz na Igreja.

Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão. O gesto discreto de misericórdia para com quatro Bispos, ordenados válida mas não legitimamente, de improviso apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja. E assim o convite à reconciliação com um grupo eclesial implicado num processo de separação transformou-se no seu contrário: uma aparente inversão de marcha relativamente a todos os passos de reconciliação entre cristãos e judeus feitos a partir do Concílio – passos esses cuja adopção e promoção tinham sido, desde o início, um objectivo do meu trabalho teológico pessoal. O facto de que esta sobreposição de dois processos contrapostos se tenha verificado e que durante algum tempo tenha perturbado a paz entre cristãos e judeus e mesmo a paz no seio da Igreja, posso apenas deplorá-lo profundamente. Disseram-me que o acompanhar com atenção as notícias ao nosso alcance na internet teria permitido chegar tempestivamente ao conhecimento do problema. Fica-me a lição de que, para o futuro, na Santa Sé deveremos prestar mais atenção a esta fonte de notícias. Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos, que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste. Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir.

Outro erro, que lamento sinceramente, consiste no facto de não terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publicação, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. A excomunhão atinge pessoas, não instituições. Um ordenação episcopal sem o mandato pontifício significa o perigo de um cisma, porque põe em questão a unidade do colégio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade. Passados vinte anos daquelas ordenações, tal objectivo infelizmente ainda não foi alcançado. A remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso. Este gesto tornara-se possível depois que os interessados exprimiram o seu reconhecimento, em linha de princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio. E isto traz-me de volta à distinção entre pessoa e instituição. A remissão da excomunhão era um provimento no âmbito da disciplina eclesiástica: as pessoas ficavam libertas do peso de consciência constituído pela punição eclesiástica mais grave. É preciso distinguir este nível disciplinar do âmbito doutrinal. O facto de a Fraternidade São Pio X não possuir uma posição canónica na Igreja não se baseia, ao fim e ao cabo, em razões disciplinares mas doutrinais. Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canónica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja. Por conseguinte, é necessário distinguir o nível disciplinar, que diz respeito às pessoas enquanto tais, do nível doutrinal em que estão em questão o ministério e a instituição. Especificando uma vez mais: enquanto as questões relativas à doutrina não forem esclarecidas, a Fraternidade não possui qualquer estado canónico na Igreja, e os seus ministros – embora tenham sido libertos da punição eclesiástica – não exercem de modo legítimo qualquer ministério na Igreja.

À luz desta situação, é minha intenção unir, futuramente, a Comissão Pontifícia «Ecclesia Dei» – instituição competente desde 1988 para as comunidades e pessoas que, saídas da Fraternidade São Pio X ou de idênticas agregações, queiram voltar à plena comunhão com o Papa – à Congregação para a Doutrina da Fé. Deste modo torna-se claro que os problemas, que agora se devem tratar, são de natureza essencialmente doutrinal e dizem respeito sobretudo à aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos Papas. Os organismos colegiais pelos quais a Congregação estuda as questões que se lhe apresentam (especialmente a habitual reunião dos Cardeais às quartas-feiras e a Plenária anual ou bienal) garantem o envolvimento dos Prefeitos de várias Congregações romanas e dos representantes do episcopado mundial nas decisões a tomar. Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade. Mas, a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.

Dito isto, espero, amados Irmãos, que tenham ficado claros tanto o significado positivo como os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009. Mas resta a questão: Tal provimento era necessário? Constituía verdadeiramente uma prioridade? Não há porventura coisas muito mais importantes? Certamente existem coisas mais importantes e mais urgentes. Penso ter evidenciado as prioridades do meu Pontificado nos discursos que pronunciei nos seus primórdios. Aquilo que disse então permanece inalteradamente a minha linha orientadora. A primeira prioridade para o Sucessor de Pedro foi fixada pelo Senhor, no Cenáculo, de maneira inequivocável: «Tu (…) confirma os teus irmãos» (Lc 22, 32). O próprio Pedro formulou, de um modo novo, esta prioridade na sua primeira Carta: «Estai sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar a razão da esperança que está em vós» (1 Ped 3, 15). No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf. Jo 13, 1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. O verdadeiro problema neste momento da nossa história é que Deus possa desaparecer do horizonte dos homens e que, com o apagar-se da luz vinda de Deus, a humanidade seja surpreendida pela falta de orientação, cujos efeitos destrutivos se manifestam cada vez mais.

Conduzir os homens para Deus, para o Deus que fala na Bíblia: tal é a prioridade suprema e fundamental da Igreja e do Sucessor de Pedro neste tempo. Segue-se daqui, como consequência lógica, que devemos ter a peito a unidade dos crentes. De facto, a sua desunião, a sua contraposição interna põe em dúvida a credibilidade do seu falar de Deus. Por isso, o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos – em prol do ecumenismo – está incluído na prioridade suprema. A isto vem juntar-se a necessidade de que todos aqueles que crêem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos – embora na diversidade das suas imagens de Deus – para a fonte da Luz: é isto o diálogo inter-religioso. Quem anuncia Deus como Amor levado «até ao extremo» deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor aos doentes, afastar o ódio e a inimizade, tal é a dimensão social da fé cristã, de que falei na Encíclica Deus caritas est.

Em conclusão, se o árduo empenho em prol da fé, da esperança e do amor no mundo constitui neste momento (e, de formas diversas, sempre) a verdadeira prioridade para a Igreja, então fazem parte dele também as pequenas e médias reconciliações. O facto que o gesto submisso duma mão estendida tenha dado origem a um grande rumor, transformando-se precisamente assim no contrário duma reconciliação é um dado que devemos registar. Mas eu pergunto agora: Verdadeiramente era e é errado ir, mesmo neste caso, ao encontro do irmão que «tem alguma coisa contra ti» (cf. Mt 5, 23s) e procurar a reconciliação? Não deve porventura a própria sociedade civil tentar prevenir as radicalizações e reintegrar os seus eventuais aderentes – na medida do possível – nas grandes forças que plasmam a vida social, para evitar a segregação deles com todas as suas consequências? Poderá ser totalmente errado o facto de se empenhar na dissolução de endurecimentos e de restrições, de modo a dar espaço a quanto nisso haja de positivo e de recuperável para o conjunto? Eu mesmo constatei, nos anos posteriores a 1988, como, graças ao seu regresso, se modificara o clima interno de comunidades antes separadas de Roma; como o regresso na grande e ampla Igreja comum fizera de tal modo superar posições unilaterais e abrandar inflexibilidades que depois resultaram forças positivas para o conjunto. Poderá deixar-nos totalmente indiferentes uma comunidade onde se encontram 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis? Verdadeiramente devemos com toda a tranquilidade deixá-los andar à deriva longe da Igreja? Penso, por exemplo, nos 491 sacerdotes: não podemos conhecer toda a trama das suas motivações; mas penso que não se teriam decidido pelo sacerdócio, se, a par de diversos elementos vesgos e combalidos, não tivesse havido o amor por Cristo e a vontade de anunciá-Lo e, com Ele, o Deus vivo. Poderemos nós simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal radical, da busca da reconciliação e da unidade? E depois que será deles?

É certo que, desde há muito tempo e novamente nesta ocasião concreta, ouvimos da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presunção, fixação em pontos unilaterais, etc. Em abono da verdade, devo acrescentar que também recebi uma série de comoventes testemunhos de gratidão, nos quais se vislumbrava uma abertura dos corações. Mas não deveria a grande Igreja permitir-se também de ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita? Não deveremos nós, como bons educadores, ser capazes também de não reparar em diversas coisas não boas e diligenciar por arrastar para fora de mesquinhices? E não deveremos porventura admitir que, em ambientes da Igreja, também surgiu qualquer dissonância? Às vezes fica-se com a impressão de que a nossa sociedade tenha necessidade pelo menos de um grupo ao qual não conceda qualquer tolerância, contra o qual seja possível tranquilamente arremeter-se com aversão. E se alguém ousa aproximar-se do mesmo – do Papa, neste caso – perde também o direito à tolerância e pode de igual modo ser tratado com aversão sem temor nem decência.

Amados Irmãos, nos dias em que me veio à mente escrever-vos esta carta, deu-se o caso de, no Seminário Romano, ter de interpretar e comentar o texto de Gal 5, 13-15. Notei com surpresa o carácter imediato com que estas frases nos falam do momento actual: «Não abuseis da liberdade como pretexto para viverdes segundo a carne; mas, pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a lei se resume nesta palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais mutuamente, tomai cuidado em não vos destruirdes uns aos outros». Sempre tive a propensão de considerar esta frase como um daqueles exageros retóricos que às vezes se encontram em São Paulo. E, sob certos aspectos, pode ser assim. Mas, infelizmente, este «morder e devorar» existe também hoje na Igreja como expressão duma liberdade mal interpretada. Porventura será motivo de surpresa saber que nós também não somos melhores do que os Gálatas? Que pelo menos estamos ameaçados pelas mesmas tentações? Que temos de aprender sempre de novo o recto uso da liberdade? E que devemos aprender sem cessar a prioridade suprema: o amor? No dia em que falei disto no Seminário Maior, celebrava-se em Roma a festa de Nossa Senhora da Confiança. De facto, Maria ensina-nos a confiança. Conduz-nos ao Filho, de Quem todos nós podemos fiar-nos. Ele guiar-nos-á, mesmo em tempos turbulentos. Deste modo quero agradecer de coração aos numerosos Bispos que, neste período, me deram comoventes provas de confiança e afecto, e sobretudo me asseguraram a sua oração. Este agradecimento vale também para todos os fiéis que, neste tempo, testemunharam a sua inalterável fidelidade para com o Sucessor de São Pedro. O Senhor nos proteja a todos nós e nos conduza pelo caminho da paz. Tais são os votos que espontaneamente me brotam do coração neste início da Quaresma, tempo litúrgico particularmente favorável à purificação interior, que nos convida a todos a olhar com renovada esperança para a meta luminosa da Páscoa.

Com uma especial Bênção Apostólica, me confirmo

Vosso no Senhor

BENEDICTUS PP. XVI

Vaticano, 10 de Março de 2009.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Estupro, aborto e valores distorcidos - Carlos Ramalhete

Estupro, aborto e valores distorcidos

Por Carlos Ramalhete

Têm sido espantosas as reações à declaração de dom Cardoso, arcebispo de Olinda e Recife, acerca das excomunhões dos responsáveis pelo aborto das duas crianças geradas no estupro de uma menina de nove anos de idade. O que ele fez foi apenas o seu dever: comunicar ter ocorrido a excomunhão automática dos responsáveis pela morte de duas crianças inocentes. Quem lesse as reações à comunicação, contudo, teria a impressão de que havia uma vida apenas em risco, e esta seria a vida da mãe das crianças. Não é o caso. A vida dela estava, sim, em um certo grau de risco, não maior nem menor que o de muitas mulheres grávidas com alguma complicação. Casos muito piores já chegaram a um final feliz.

Neste caso, contudo, aproveitando-se de uma falsa brecha legal – o fato de o Direito brasileiro não prever punição para o aborto de crianças geradas por estupro ou em caso de risco de vida para a mãe, exatamente como não prevê punição para o furto cometido por um filho contra o pai – grupos de pressão interessados na legalização do aborto apressaram-se, contra a vontade da mãe e de seus responsáveis legais, a matar o quanto antes as crianças que cometeram o crime de terem sido concebidas no transcurso de um repulsivo estupro. Os filhos são punidos com pena de morte pelo crime do pai.

A violência das reações à declaração de dom Cardoso, contudo, mostra claramente o alcance – em alguns setores bastante vocais da classe média urbana – de uma pseudoética apavorante. As crianças mortas simplesmente não entram na equação, não são consideradas. O próprio estupro só é mencionado de passagem. O risco de vida para a mãe é transformado em uma certeza de sua morte. São saudados como heróis salvadores os carniceiros que arrancaram do ventre da mãe duas crianças perfeitamente saudáveis e atiraram os cadáveres em uma cesta de lixo, onde provavelmente estava uma cópia mofada do juramento de Hipócrates que fizeram quando se formaram médicos.


Isto ocorre por ter sido perdida a noção do valor da vida. A vida, em si, para os defensores do aborto, não vale nada. Ao invés dela, o que teria valor seria o resultado final de uma equação que tem como componentes o bem-estar da pessoa e sua utilidade para a sociedade. As crianças abortadas não têm valor para a sociedade, logo podem ser mortas. Mais ainda, não merecem menção. A única criança digna de menção é a mãe, e olhe lá.


Ela mesma, a mãe das crianças abortadas, tem seu sofrimento deixado de lado. Uma menina de nove anos de idade que sofreu a violência de um estupro, provavelmente reiteradas vezes; uma criança ela mesma, vivendo mais que provavelmente em condições miseráveis (sabe-se que sua mãe não sabe ler e escrever, o que serviu bem aos que simplesmente mandaram que apusesse a impressão do polegar aos papéis que, como depois ela veio a saber, eram a sentença de morte de seus netos), foi levada de um lugar para o outro, teve os filhos que ela desejava manter arrancados de seu ventre e mortos, sendo tratada apenas como excelente exemplo de portadora biológica de material a abortar.


É de crer que provavelmente os defensores do aborto teriam de bom grado preferido que ela também tivesse sido abortada: o resultado da equação de utilidade social e bem-estar que usam para valorizar uma vida dificilmente seria alto o suficiente no caso dela para garantir-lhe a sobrevivência.

O estupro, mais ainda, o estupro reiterado e contumaz de uma criança indefesa é um crime asqueroso, que poderia em justiça merecer a pena de morte (não percebi, aliás, em nenhuma das numerosas e estridentes reações pró-aborto à declaração de dom Cardoso, alguém pedindo que fosse estendida ao estuprador a pena de morte que sofreram seus filhos). Quem o comete vê em sua vítima apenas um orifício cercado por forma humana, um receptáculo fraco e indefeso, logo acessível a suas taras. É já uma negação da humanidade da vítima: ela não merece, crê o estuprador, ter direito de opinião sobre o que é feito com seu corpo.

A mesma negação feita pelo estuprador contra sua vítima foi reiterada sobre seus filhos: ela foi estuprada; eles foram mortos. Desumanizada pela primeira vez pelo estuprador, ela o foi novamente, juntamente com seus próprios filhos – a flor de esperança e de vida que poderia ter saído do lodo da violência – pelos que não consideram que a vida tenha, por ser vida humana, algum valor. Agora, esperam eles, esgotado seu valor de propaganda, ela pode rastejar de volta à miséria de seu barraco e deixá-los tocar em paz a campanha pró-aborto.


Carlos Ramalhete é professor e filósofo. Publicado na Gazeta do Povo.

Charge

by Emerson de Oliveira, publicado no blog Veritatis Splendor


Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a palavra de Deus. Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos. (Efésios 6,12-18)

terça-feira, 10 de março de 2009

O encontro

Há alguns dias escrevi o post "O Demônio reunindo suas forças".

Eis uma boa ilustração para o post...




sexta-feira, 6 de março de 2009

Arnaldo Jabor

Em um artigo, o grande pensador católico Gustavo Corção escreveu que “Os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação”.

Creio que Corção, com algumas décadas de antecedência, retratou perfeitamente o que vemos acontecer agora: um tolo, sem o mínimo conhecimento do que seja a Igreja Católica Apostólica Romana, seus 2000 anos de história, sua doutrina e suas leis, tem a sua disposição, como fabulosa massa de manobra, a maior audiência da TV brasileira para ouvir suas tolices, suas pseudo-análises do que ocorre dentro da Igreja (sim, porque nenhum bispo nem muito menos o papa foi interferir no trabalho de Jabor).

Há algumas semanas, por conta do levantamento das excomunhões dos quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Arnaldo Jabor se meteu a comparar o pontificado de João Paulo II com o de Bento XVI (veja o vídeo). Não consigo pensar em outro adjetivo para o discurso do sujeito que não seja: ASNEIRAS.

Começou afirmando que João Paulo II era "pra fora", ao passo que Bento XVI é "pra dentro". Que aquele queria levar a Igreja para o mundo, e este quer trazer o mundo para dentro da Igreja. Jabor demonstra desconhecer completamente o pontificado de João Paulo II e a intensa colaboração e amizade entre ele e o então Cardeal Jospeph Ratzinger; assim como demonstra também desconhecer completamente que Nosso Senhor mandou sua Igreja "ensinar e batizar todos os povos e nações" (Mt 28,19). Tanto que chega ao absurdo de afirmar que foi um erro o papa batizar o islâmico convertido ao catolicismo no sábado santo do ano passado.

Por fim, critica o levantamento da excomunhão do bispo Richard Williamson (um dos quatro da FSSPX) após este ter "negado o Holocausto" (primeiro que ele não negou, mas isso é outra história). Tal afirmação de Williamson não era do conhecimento do Papa, a este fato comenta com grosseira ironia: "como não sabia, o Papa não é infalível?".

Agora, Jabor se mete novamente onde não é chamado e nem tem competência para tal, e desfila novamente todo seu ódio, ironia e desconhecimento da Igreja (veja o vídeo).

O foco agora foi a declaração de Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Recife e Olinda, de que quem participou do aborto da menina de 9 anos está excomungado.

Afirma ele que "esse pensamento dogmático, inquisitorial, só afasta a igreja católica do mundo moderno".

Passo a palavra a São Paulo Apóstolo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito" (Rm 12,2).

Jabor segue: "Logo agora que a história está tão cruel, agora que os homens precisam de uma religião protetora, agora que precisávamos da doçura da igreja, temos os olhos frios de Bento XVI".

Pois é, triste coinscidência... logo agora que a boa filosofia está esquecida, que os homens se rendem aos seus mais torpes desejos e abandonam a inteligência e a lógica, justo agora que precisávamos de homens inteligentes e cultos ensinando nos grandes meios de comunicação, temos a inteligência embaçada, a má vontade, a incompetência profissional e a língua bipartida de Arnaldo Jabor...

Voltando a Corção: "São os idiotas que possuem hoje os meios de comunicação".

O idiota em referência, encerra seu apanhado de idiotices com a seguinte pérola: "Os excomungados de Olinda não devem ter medo. Deus está vendo e está com eles. Certamente não está com esse inquisidor, o arcebispo José Cardoso Sobrinho."

Agora Jabor, além de analista da Santa e Romana Igreja, determina também com quem Deus está e com quem Ele deixa de estar. Este sujeito é realmente engraçado, a Igreja não tem o direito de excomungar quem fere as leis de Deus (mesmo que essas pessoas estejam pouco se importando com Deus), mas ele tem o direito de anular a excomunhão declarada. Mais uma vez vemos a intolerância dos tolerantes... Tolerância com todos e com todas as atitudes, menos aquelas advindas da Igreja Católica.

O que verdadeiramente não é muito difícil de saber é quem está com Arnaldo Jabor...

Por fim, chama Dom José Sobrinho de inquisidor. Esse ataque me fez pensar nos tempos em que um idiota desse não estaria à solta falando tanta bobagem, ou estaria preso, ou se converteria, ou viraria carvão. Pelo menos as inteligências e as boas almas eram preservadas de tamanhas baboseiras.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dom José Cardoso Sobrinho, digno sucessor dos apóstolos!

O Jorge Ferraz, em seu excelente Deus lo vult!, traz uma citação absolutamente fantástica de Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife

"Se existem pessoas que se dizem católicas e que não aceitam essa doutrina, essas pessoas não podem se chamar católicas. São católicos de IBGE, porque o católico de verdade tem que aceitar a doutrina da sua Igreja. Quem se diz católico e rejeita a doutrina, é um católico falso, está propagando apenas as suas opiniões." [Dom José Cardoso Sobrinho, in Aborto em Foco]

Vivemos tempos tão peculiares, que um bispo dizer tal coisa supreende. A regra deveria ser ouvir sempre essas declarações, nossos pastores nos lembrando como devemos ser e agir. Mas infelizmente pastores zelosos assim viraram excessão...

E por falar em Dom Sobrinho: Arcebispo excomunga médicos e parentes de menina que fez aborto. E sofre, como é normal, a intolerância dos que tanto clamam por tolerância.

Vida longa a este digno e corajoso sucessor dos Apóstolos!

quarta-feira, 4 de março de 2009

Postura pró-vida de menina de 12 anos comove professora pró-aborto

Há alguns dias comentei aqui sobre a garota Lia, que fez um forte discurso pró-vida em uma competição de seu colégio.

Registro aqui a tradução que Julio Severo fez de uma matéria da LifeSiteNews.com, onde a mãe de Lia relata a oposição que ela sofreu de professores e jurados.

Leia a matéria no blog do Julio Severo.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Apoio a Dom Aldo di Cillo Pagotto



Este blog apoia Dom Aldo di Cillo Pagotto!



O arcebispo da Paraíba, Dom Aldo di Cillo Pagotto, conforme notícia da Zenit abaixo, suspendeu o pe. Luiz Couto de suas funções sacerdotais por defender doutrinas contrárias ao ensino da Igreja. Em recente entrevista, o pe. Couto fez declarações absurdas, tanto que a manchete da entrevista foi "Padre, deputado e adversário do celibato. Favorável ao uso do preservativo, Luiz Couto combate a intolerância e a discriminação a homossexuais, contrariando o Vaticano".

Agora, o Diário de Pernambuco noticia que o bispo está sofrendo aquela típica perseguição de quem é fiel a Nosso Senhor e à Sua Santa Igreja, sofre a intolerância dos que tanto clamam por tolerância. E ao tomarmos conhecimento de onde vem as críticas, podemos ter ainda mais certeza que d. Aldo fez a coisa certa...

A lista inclui: Ricardo Berzoini (presidente do PT), "Central Única dos Trabalhadores" (CUT), "Associação das Travestis da Paraíba" (Astrapa), "Grupo da Consciência Negra", "Marcha Mundial das Mulheres" (organização feminista, defensora do lesbianismo e do aborto), "Associação dos Padres Casados", "Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais" (Abglt), "Comitê em Solidariedade ao Povo Palestino", "Comissão Pastoral da Terra do Estado da Paraíba" (CPT) e do bispo D. Tomás Balduíno (conhecido por sua militância de cunho esquerdista junto aos comunistas-terroristas MST).

"Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!" (Is 5, 20)

Inabalável em sua Fé e consciente de que agiu de acordo com o Evangelho de Nosso Senhor, D. Aldo Pagotto declarou que essas manifestações "não me atinge, não me emociona, nem me constrange".

Cristo Senhor, enfrentando a oposição daqueles que não aceitavam seu ensinamento, não hesitou em questionar os apóstolos: "Quereis vós também retirar-vos?". Pena que são poucos hoje os que se levantam e dizem com São Pedro: "Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna". (Jo 6, 67-68).

Por isso, pela sua coragem em agir como verdadeiro sucessor dos Apóstolos, defender seu rebanho e expulsar os lobos que o ameaçam, este blog engrossa o coro dos que apoiam Dom Aldo di Cillo Pagotto.


Brasil: arcebispo suspende padre que é deputado por declarações contrárias ao Magistério da Igreja

JOÃO PESSOA, sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- O arcebispo da Paraíba (nordeste do Brasil), Dom Aldo di Cillo Pagotto, suspendeu do uso de Ordem o padre Luiz Couto, que é deputado federal pelo PT (Partido dos Trabalhadores), por ele ter feito afirmações contrárias ao Magistério da Igreja.

O presbítero está impedido de realizar atividades próprias de um sacerdote, como celebrar missas.

Segundo nota difundida pela arquidiocese da Paraíba, o padre concedeu uma entrevista, publicada no dia 25 de fevereiro no Jornal O Norte. A entrevista, diante de seu conteúdo, estava intitulada: ‘Padre, deputado e adversário do celibato. Favorável ao uso do preservativo, Luiz Couto combate a intolerância e a discriminação a homossexuais, contrariando o Vaticano’.«Preposto à Arquidiocese da Paraíba, vejo-me na grave obrigação de suspender o referido sacerdote do uso de Ordem em nossa circunscrição eclesiástica», afirma na nota Dom Aldo Pagotto.

«Porquanto, por suas afirmações sumárias, e enquanto perdurem sem retratação explícita, provoca confusão entre os fiéis cristãos, e contraria ‘in noce’ as orientações doutrinais, éticas e morais sustentadas pela Igreja Católica (Cf. Cânon 1317 CDC)», prossegue o arcebispo.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dom Malcolm Ranjith fala em "reforma da reforma" litúrgica

Em notícia divulgada pela Catholic World News (CWN) o arcebispo do Sri Lanka e secretário da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Dom Malcolm Ranjith, comentou sobre a necessidade de se "reformar a reforma" litúrgica, que em pouco ou nada seguiu as orientações do Concílio Vaticano II.

Não é de hoje que d. Ranjith coloca em público suas opiniões sobre liturgia. Quem quiser pode ler uma antiga, mas interessante, entrevista desse bispo para a revista 30 Dias.

A tradução da notícia da CWN para o português é da Associação Cultural Montfort. Os destaques sublinhados e em negrito são meus.

Uma autoridade chave do Vaticano pediu por decisões “ousadas e corajosas” para corrigir os abusos litúrgicos que surgiram desde as reformas do Vaticano II.

O Arcebispo Malcolm Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino, diz que um entendimento falho dos ensinamentos do Vaticano II e a influência das ideologias seculares são as razões para se concluir que – como disse o então Cardeal Joseph Ratzinger em 1985 – “o verdadeiro tempo do Vaticano II ainda não chegou”. Particularmente no campo da liturgia, o Arcebispo Ranjith diz, “A reforma tem que continuar”.

O Arcebispo Ranjith, que foi pessoalmente chamado para o Vaticano pelo Papa Bento XVI para ajudá-lo como um aliado na busca pela restauração do senso de reverência na liturgia, fez este comentário no Prefácio de um novo livro baseado nos diários e anotações do Cardeal Fernando Antonelli, que foi uma figura chave no movimento de reforma litúrgica, tanto antes quanto depois do Vaticano II.

Sobre os escritos do Cardeal Antonelli, o Arcebispo Ranjith diz, que ajudam o leitor “a entender o complexo trabalho interno da reforma da liturgia antes da imediata aplicação do Concílio.” Essa autoridade do Vaticano conclui que a implementação das reformas sugeridas pelo Concílio muitas vezes passou longe das verdadeiras intenções dos padres do Concílio. Como resultado, o Arcebispo Ranjith conclui, a liturgia hoje não é uma verdadeira realização da visão proposta no documento litúrgico essencial do Vaticano II, a Sacrosanctum Concilium.

Especificamente o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve: “Algumas práticas que o Sacrosanto Concílio nunca sequer tinha especulado foram permitidas dentro da liturgia, como a Missa voltada para o povo, a Sagrada Comunhão na mão, incluindo a desistência do Latim e do Canto Gregoriano a favor do vernáculo e de canções e hinos sem espaço para Deus, e a ampliação além de qualquer limite razoável da faculdade de concelebrar a Santa Missa. Houve também um erro grosseiro de interpretação do princípio da “participação ativa”.

O prelado do Sri Lanka argumenta que para executar a “reforma da reforma” é essencial reconhecer como a visão litúrgica do Vaticano II se tornou distorcida. Ele exalta o livro sobre o Cardeal Antonelli por permitir o leitor ganhar um melhor entendimento de “quais nomes ou atitudes causaram a presente situação”. Isto, diz o arcebispo, é um exame “que, em nome da verdade, não podemos abandonar”.

Enquanto reconhece “o humor turbulento dos anos que imediatamente seguiram o Concílio”, o Arcebispo Ranjith lembra os leitores que ao chamar todos os bispos do mundo para um concílio ecumênico, o Beato João XXIII pretendia “uma fortificação da fé”. O Concílio aos olhos do Papa João “certamente não foi um chamado para fazer as pazes com o espírito dos tempos”.

Entretanto, continua ele, o Concílio aconteceu num tempo de grande comoção intelectual mundial, e especialmente na sua conseqüência, muitos seriam os interpretes que viram o evento como uma ruptura com a tradição anterior da Igreja. Como o Arcebispo Ranjith colocou:

Conceitos básicos e temas como Sacrifício e Redenção, Missão, Anúncio e Conversão, a Adoração como um elemento integral da Comunhão, e a necessidade da Igreja para a salvação – todos foram postos de lado, enquanto Diálogo, Inculturação, Ecumenismo, Eucaristia como Ceia, Evangelização como Testemunha, etc., se tornaram mais importantes. Os valores absolutos foram desprezados. Mesmo no trabalho do Consilium, o Vaticano se atribui a função de implementar as mudanças litúrgicas, estas influencias foram claramente sentidas, o arcebispo nota: “Um senso exagerado do antiquado, antropologismo, a confusão de papéis entre pessoas ordenadas e não ordenadas, uma permissão sem limites de espaço para a experimentação – e de fato, a tendência para desprezar alguns aspectos do desenvolvimento da Liturgia no segundo milênio – foram incrivelmente visíveis entre certas escolas litúrgicas".


Hoje, o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve, a Igreja pode olhar para trás e reconhecer as influências que distorceram a intenção original do Concílio. Este reconhecimento, ele diz, deveria “ajudar-nos a sermos corajosos para melhorar ou mudar aquilo que foi erroneamente introduzido e que parece incompatível com a verdadeira dignidade da Liturgia. Uma “reforma da reforma” por demais necessária, ele argumenta, deveria ser inspirada “não pelo mero desejo de corrigir os erros passados, mas muito mais pela necessidade de ser verdadeira para o que a Liturgia de fato significa para nós e o que o Concílio mesmo definiu para ser.”

O Prefácio de 10 páginas do Arcebispo Malcolm Ranjith aparece na edição na língua inglesa do livro intitulado “O Verdadeiro Desenvolvimento da Liturgia”escrito por Monsenhor Nicola Giampietro, que faz parte do quadro de pessoal da Congregação para o Culto Divino. Ele estará disponível em Setembro, nos Livros Católicos Romanos.