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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A “Reforma da Reforma” se aproxima

ROMA: O documento foi entregue em mãos a Bento XVI na manhã de 4 de abril passado pelo Cardeal espanhol Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. É o resultado de uma votação reservada, que ocorreu em 12 de março, no transcurso da sessão “plenária” do dicastério responsável pela liturgia, e representa o primeiro passo concreto em direção àquela “reforma da reforma” freqüentemente desejada pelo Papa Ratzinger. Os Cardeais e Bispos membros da Congregação votaram quase unanimemente em favor de uma maior sacralidade do rito, da recuperação do senso de culto eucarístico, da retomada da língua Latina na celebração e da re-elaboração das partes introdutórias do Missal a fim de pôr fim aos abusos, experimentações desordenadas e inadequada criatividade. Eles também se declararam favoráveis a reafirmar que o modo ordinário de receber a Comunhão conforme as normas não é na mão, mas na boca. Há, é verdade, um indulto que, a pedido dos episcopados [locais], permite a distribuição da hóstia [sic] também na palma da mão, mas isso deve permanecer um fato extraordinário. O “Ministro da Liturgia” do Papa Ratzinger, Cañizares, está também estudando a possibilidade de recuperar a orientação do celebrante em direção ao Oriente, ao menos no momento da consagração eucarística, como acontecia de fato antes da reforma, quando tanto fiéis como padre voltavam-se em direção à Cruz e o padre então voltava suas costas à assembléia.

Aqueles que conhecem o Cardeal Cañizares, apelidado “o pequeno Ratzinger” antes de sua vinda para Roma, sabem que ele está disposto a levar adiante decisivamente o projeto, começando de fato do que foi estabelecido pelo Concílio Vaticano Segundo na constituição Sacrosanctum Concilium, que foi, na realidade, excedido pela reforma pós-conciliar que entrou em vigor no fim dos anos 60. O purpurado, entrevistado pela revista 30Giorni nos últimos meses, declarou a respeito: “Às vezes as mudanças eram feitas pelo mero fim de mudar um passado compreendido como negativo e fora de época. Às vezes a reforma foi vista como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da Tradição”.

Por esta razão, as “propositiones” votadas pelos Cardeais e Bispos na plenária de Março prevêem um retorno ao sentido de sagrado e de adoração, mas também um redescobrimento das celebrações em latim nas dioceses, ao menos nas solenidades principais, assim como a publicação de Missais bilíngües – um pedido feito a seu tempo por Paulo VI – com o texto em latim primeiro.

As propostas da Congregação que Cañizares entregou ao Papa, obtendo sua aprovação, estão perfeitamente em linha com a idéia sempre expressa por Joseph Ratzinger quando ainda era Cardeal, como é deixado claro em suas palavras não publicadas [ndt: ao menos na Itália, pois no mundo ‘tradicionalista’ já era conhecida a carta do então Cardeal Ratzinger ao dr. Barth] reveladas antecipadamente por Il Giornale ontem, e que serão publicadas no livro Davanti al Protagonista (Cantagalli), apresentadas antecipadamente num congresso em Rimini. Com uma significante nota bene: para a realização da “reforma da reforma”, serão necessários muitos anos. O Papa está convencido que passos apressados, assim como diretrizes simplesmente lançadas de cima, não ajudam, com o risco de que muitas possam depois permanecer letra morta. O estilo de Ratzinger é o da comparação e, acima de tudo, do exemplo. Como o fato de que, por mais de um ano, quem se aproxima do Papa para a comunhão, tem que se ajoelhar no genuflexório especialmente colocado pelo cerimoniário.

Nota do Fratres in Unum: Neste contexto, é mais que oportuno rememorar as palavras pronunciadas pelo Santo Padre no fim desta plenária da Congregação, em março.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Entrevista com a Dra. Alice Von Hildebrand

Fonte: O Atanasiano Ultrapapista

Dra. Alice von Hildebrand é esposa do falecido filósofo e teólogo católico Dietrich von Hildebrand, que foi chamado por Pio XII de "doutor da Igreja do século XX".


* * * *

A conversa a seguir com Dra. Alice Von Hildebrand abre nossa discussão para o foco desta edição: A Crise na Igreja – Cenários para uma Solução. Dra. Von Hildebrand, professora emérita de filosofia de Hunter College (City University of New York), acabara de completar The Soul of a Lion, uma biografia de seu marido, Dietrich.



TLM: Dra. von Hildebrand, no tempo em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano Segundo, a senhora percebeu qualquer necessidade de reforma dentro da Igreja?

AVH: A maior parte da intuição sobre isso vem do meu marido. Ele sempre disse que os membros da Igreja, devido aos efeitos do pecado original e do pecado atual, se encontram sempre com necessidade de reforma. O ensinamento da Igreja, porém, vem de Deus. Nenhum acento deve ser modificado ou necessita de reforma.


TLM: Em termos da crise atual, quando a senhora percebeu que algo estava terrivelmente errado?

AVH: Era fevereiro de 1965, e estava num ano sabático em Florença. Meu marido estava lendo um jornal teológico, e de repente, ouvi-o desatar em lágrimas. Corri até ele, temerosa de que seu coração houvesse lhe causado dores. Perguntei-lhe se estava bem. Ele me disse que o artigo que lia lhe fez intuir que o demônio havia penetrado na Igreja. Veja, meu marido foi o primeiro alemão proeminente a se pronunciar publicamente contra Hitler e o Nazismo. As suas intuições eram sempre prescientes.


TLM: Seu marido tinha falado sobre seu temor pela Igreja antes desse incidente?
AVH: Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após sua conversão ao Catolicismo nos anos vinte, ele começou a ensinar na Universidade de Munique. Munique era uma cidade católica. Maioria dos Católicos da época ia às Missas, mas ele sempre disse que foi ali que ele começou a se preocupar com a perda do sentido de sobrenatural entre os Católicos. Um incidente em especial lhe ofereceu suficiente prova e isso o entristecia imensamente.

Quando passava por uma porta, meu marido sempre deixava passar primeiro seus alunos que eram sacerdotes. Um dia, um dos seus colegas (um Católico) expressou sua surpresa e desagrado: “Por que você deixa seus alunos entrar antes de você?” “Porque são sacerdotes”, respondeu meu marido. “Mas eles não possuem PhD”. Meu marido se sentiu arrasado. Valorizar PhD é uma reação natural; estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reação sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reação para o sobrenatural havia erodido. Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até Concílio, a beleza e a sacralidade da liturgia Tridentina mascarava esse fenômeno.


TLM: Seu marido achava que o declínio do sentido do sobrenatural havia comecado nessa época, e no caso afirmativo, como ele o explicava?

AVH: Não, ele acreditava que após a condenação da heresia do Modernismo pelo Papa Pio X, seus proponentes simplesmente havia se retirado para subsolo. Ele diria que então eles tomaram uma abordagem muito mais sutil e prática. Espalhavam dúvidas simplesmente levantando questões sobre as grandes intervenções sobrenaturais através da história da salvação, tais como Nascimento Virginal e virgindade perpétua de Nossa Senhora, bem como a Ressurreição e a Sagrada Eucaristia. Eles sabiam que uma vez abalada a fé – a fundação – a liturgia e os ensinamentos morais da Igreja também desmoronariam. Meu marido intitulou um dos seus livros The Devastated Vineyard (A Vinha Devastada). Após Vaticano II parece que um tornado havia atingido a Igreja.

O próprio Modernismo era fruto de calamidade do Renascimento e da Revolta Protestante, e levou um longo processo histórico para se revelar. Se fôssemos perguntar a um Católico típico da Idade Média o nome de um herói ou heroína, ele certamente citaria um santo. O Renascimento começou a mudar isso. Ao invés de um santo, as pessoas pensariam num gênio como pessoas a imitar, e com a chegada da era industrial, as pessoas citariam um grande cientista. Hoje elas responderiam com o nome de um esportista ou personagens da mídia. Em outras palavras, a perda do sentido do sobrenatural trouxe a inversão da hierarquia de valores.

Mesmo o pagão Platão estava aberto para o sentido do sobrenatural. Ele falou da fraqueza, fragilidade e covardia freqüentemente evidenciadas na natureza humana. Ele foi indagado por um crítico do porquê de tal baixa estima sobre a humanidade. Ele respondeu que não denegria o homem, apenas comparava-o a Deus.

Com a perda do sentido de sobrenatural, há uma perda do sentido da necessidade para o sacrifício, hoje. Quanto mais alguém se aproxima de Deus, maior é a sua consciência de ser pecador. Quando mais alguém se afasta de Deus, como hoje, mais escutamos a filosofia da nova era “Estou bem, Você está bem”. A perda da inclinação para o sacrifício leva ao obscurecimento da missão redentora da Igreja. Onde a Cruz é subestimada a nossa necessidade de redenção é igualmente ignorada. A aversão ao sacrifício e redenção ajudou a secularização da Igreja do seu interior. Temos ouvido durante muitos anos dos sacerdotes e bispos sobre a necessidade da Igreja se adaptar ao mundo. Grandes Papas como S. Pio X disseram exatamente o oposto: o mundo deve se adaptar à Igreja.


TLM: Da nossa conversa, devo concluir que a senhora não acredita que a perda acelerada do sentido do sobrenatural seja um acidente no percurso da história.

AVH: Não, não acredito. Houve dois livros publicados na Itália nestes anos que confirmam o que meu marido suspeitava há algum tempo: que tem havido uma infiltração sistemática da Igreja pelos inimigos diabólicos por todo este século. Meu marido foi um homem muito esperançoso e otimista por natureza. Durante os dez últimos anos de sua vida, porém, testemunhei muitos momentos de grande tristeza, e freqüentemente o ouvi repetir: “Eles dessacralizaram a Santa Esposa de Cristo”. Ele estava se referindo à “abominação da desolação” da qual fala o profeta Daniel.


TLM: Esta é uma admissão crítica, Dra. von Hildebrand. Seu marido foi chamado Doutor da Igreja do Século XX pelo Papa Pio XII. Ele não teria acesso ao Vaticano para falar dos seus temores para o Papa Paulo VI?

AVH: Mas foi exatamente o que ele fez! Nunca esquecerei a audiência privada que tivemos com Paulo VI logo antes do fim do Vaticano II. Foi em 21 de junho de 1965. Assim que meu marido começou a apelar para que ele condenasse as heresias que estavam se espalhando, o Papa o interrompeu com as palavras, “Lo scriva, lo scriva.” (“Escreva-o.”). Momentos depois, pela segunda vez, meu marido expôs a gravidade da situação ao Papa. A mesma resposta. Sua Santidade nos recebeu em pé. Estava claro que o Papa se sentia muito inconfortável. A audiência durou apenas alguns minutos. Paulo VI deu imediatamente um sinal ao seu secretário, Pe. Capovilla, para nos trazer rosários e medalhas. Nós então retornamos à Florença onde meu marido escreveu um longo documento (não publicado até hoje) que foi entregue a Paulo VI na véspera da última sessão do Concílio. Era setembro de 1965. Após ler o documento de meu marido, ele disse ao sobrinho do meu marido, Dieter Sattler, que havia se tornado embaixador alemão da Santa Sé, que havia lido o documento cuidadosamente, mas que “era um pouco áspero”. A razão era óbvia: o meu marido havia humildemente solicitado uma clara condenação de afirmações heréticas.


TLM: A senhora percebe, certamente, Doutora, que tão logo a senhora menciona essa idéia da infiltração, haverá aqueles que levantam seus olhos em desdém e bradam, “ei, outra teoria de conspiração!?”

AVH: Eu só posso dizer o que sei. É uma questão de registro público, por exemplo, que Bella Dodd, uma ex-Comunista que se re-converteu à Igreja, falou abertamente da deliberada infiltração dos agentes do partido Comunista nos seminários. Ela contou ao meu marido e a mim que quando era membro ativo do partido, se encontrou com não menos que quatro cardeais dentro do Vaticano, “que trabalhavam para nós”.

Muitas vezes ouvi os norte-americanos dizerem que os europeus “cheiram conspiração onde quer que vão”. Mas desde o início, o Demônio tem conspirado contra a Igreja – e sempre procurou em particular destruir a Missa e destruir a fé na Real Presença de Cristo na Eucaristia. Que algumas pessoas estejam tentadas a ignorar esse fato inegável não é razão para negar sua realidade. Por outro lado, eu, nascida européia, estou tentada a afirmar que muitos americanos são ingênuos; vivendo num país que tem sido abençoado pela paz, e conhecendo pouco a história, são mais propensos que os europeus (cuja história é tumultuada) a cair vítimas de ilusões. Rousseau tem tido enorme influência nos Estados Unidos . Quando Cristo disse aos Seus apóstolos na Última Ceia que “um de vós Me trairá”, os apóstolos ficaram perplexos. Judas havia agido de tal modo que ninguém suspeitava dele, pois um conspirador astuto sabe como cobrir seus traços com uma demonstração de ortodoxia.


TLM: Os dois livros escritos pelos sacerdotes italianos que a senhora mencionou contêm evidências dessa infiltração?

AVH: Os dois livros que mencionei foram publicados em 1998 e 2000 pelo sacerdote italiano, Don Luigi Villa da diocese de Brescia, que sob a solicitação do Padre Pio dedicou muitos anos de sua vida na investigação da possível infiltração dos Franco-maçons e Comunistas na Igreja. Meu marido e eu encontramos Don Villa nos anos sessenta. Ele alega que não faz nenhuma afirmação que não possa comprovar. Quando Paulo Sesto Beato? (1998) foi publicado, o livro foi enviado a cada bispo italiano. Nenhum deles reconheceu o recebimento, nenhum deles desafiou as alegações de Don Villa.

Neste livro, ele relata algo que nenhuma autoridade eclesiástica refutou nem pediu para ser retratado – embora ele nomeie personalidades particulares acerca do incidente.. Trata de atrito entre Papa Pio XII e o então Bispo Montini (o futuro Paulo VI) que era seu Sub-secretário do Estado. Pio XII, ciente da ameaça do Comunismo, que logo após a Segunda Guerra Mundial dominava quase a metade da Europa, havia proibido os funcionários do Vaticano a manter qualquer relação com Moscou. Para sua decepção ele foi informado um dia através do Bispo de Upsala (Suécia) de que sua ordem estrita havia sido contrariada. O Papa se negou a dar crédito a esse rumor até receber evidência inegável de que Montini mantinha correspondência com várias agências Soviéticas. Durante todo esse tempo, o Papa Pio XII (assim como Pio XI) havia enviado sacerdotes clandestinamente à Rússia para consolar os Católicos que viviam atrás da Cortina de Ferro. Cada um deles havia sido sistematicamente preso, torturado e mesmo executado ou enviado ao Gulag. Finalmente um delator de Vaticano foi descoberto: Alighiero Tondi, S.J., que era um conselheiro próximo de Montini. Tondi era um agente trabalhando para Stalin cuja missão era manter Moscou informado sobre as iniciativas tais como o envio de sacerdotes para a União Soviética.

Acrescente-se a isso o tratamento do Papa Paulo ao Cardeal Mindszenty. Contra sua vontade, Mindszenty foi ordenado pelo Vaticano a deixar Budapeste. Como quase todos sabem, ele havia escapado dos Comunistas e buscou refúgio na embaixada norte-americana. O Papa havia lhe dado sua promessa solene de que ele permaneceria primado de Hungria enquanto vivesse. Quando o Cardeal (que foi torturado pelos Comunistas) chegou em Roma, Paulo VI abraçou-o calorosamente, mas depois o enviou em exílio para Viena. Logo depois, seu santo prelado foi informado que havia sido destituído e que havia sido substituído por alguém mais aceitável pelo governo Húngaro Comunista. Mais intrigante e tragicamente triste é o fato de que quando morreu Mindszenty, nenhum representante da Igreja esteve presente no seu enterro.

Outra das alusões de infiltração de Don Villa é aquela relatada pelo Cardeal Gagnon. Paulo VI havia solicitado ao Gagnon para encabeçar uma investigação acerca da infiltração da Igreja pelos inimigos poderosos. Cardeal Gagnon (na época um Arcebispo) aceitou essa tarefa desagradável e compeliu um longo dossiê, rico em fatos preocupantes. Quando o trabalho foi completado, ele solicitou uma audiência com o Papa Paulo a fim de deliberar pessoalmente o manuscrito para o Pontífice. Essa solicitação para um encontro foi negada. O papa enviou ordem para que o documento fosse colocado nos escritórios da Congregação para os Clérigos, especificamente num cofre com dupla fechadura. Isso foi feito, mas no dia seguinte a caixa foi arrombada e o manuscrito desapareceu misteriosamente. A política usual do Vaticano é se assegurar que tais incidentes nunca vejam a luz do dia. Entrementes, esse roubo foi noticiado até no L’Osservatore Romano (talvez sob pressão porque isso não foi noticiado na imprensa secular). Cardeal Gagnon, logicamente, possuíam uma cópia, e novamente solicitou ao papa uma audiência privada. Novamente sua solicitação foi negada. Ele então decidiu deixar Roma e retornar a sua terra natal, Canadá. Mais tarde, foi chamado de volta a Roma pelo Papa João Paulo II e feito cardeal.


TLM: Por que Don Villa escreveu essas obras tendo como alvo de suas críticas Paulo VI?

AVH: Don Villa se manteve relutante para publicar os livros aos quais aludi. Mas quando vários bispos começaram a se movimentar para a beatificação de Paulo VI, esse sacerdote percebeu que era um momento de chamada para publicar as informações que havia coletado através dos anos. Assim fazendo, estava seguindo as orientações de uma Congregação Romana, informando aos fiéis que era seu dever como membros da Igreja confiar à Congregação qualquer informação que possa obstruir as qualificações do candidato para a beatificação.

Considerando o pontificado tumultuoso de Paulo VI, e os sinais confusos que fornecia, por exemplo, falando da “fumaça de Satanás que penetrou na Igreja”, e, entretanto, se recusando a condenar oficialmente as heresias; a sua promulgação de Humanae Vitae (a glória do seu pontificado), porém, sua cuidadosa recusa em proclamá-la ex-cathedra; oferecendo seu Credo do Povo de Deus em Praça S. Pedro em 1968, e novamente fracassando em declará-lo como unificador de todos os Católicos; desobedecendo as ordens estritas de Pio XII em não manter contato com Moscou, e agradando o governo Comunista Húngaro ao renegar a promessa solene que havia feito ao Cardeal Mindszenty; seu tratamento com relação ao santo Cardeal Slipyj, que passou dezessete anos num Gulag, simplesmente para se tornar um prisioneiro virtual no Vaticano; e finalmente, solicitando ao Arcebispo Gagnon para investigar possível infiltração no Vaticano, apenas para recusá-lo para uma audiência quando o trabalho estava completo – tudo isso fala fortemente contra a beatificação de Paulo VI, ecoando em Roma, “Paolo Sesto, Mesto” (Paul VI, o triste).

Que o dever de publicar essa informação deprimente foi oneroso e custou grande sofrimento ao Don Vila é inegável. Qualquer Católico rejubila quando ele pode levantar os olhos e contemplar com veneração irrestrita um Papa. Mas os Católicos sabem também que embora Cristo não tenha prometido conceder líderes perfeitos, prometeu que os portões do inferno nunca prevaleceriam. Não esqueçamos que muito embora a Igreja tivesse alguns papas muito ruins, e outros, medíocres, ela tem sido abençoada com muitos grandes Papas. Oitenta deles foram canonizados e vários, beatificados. Esta é uma história de sucesso sem paralelo no mundo secular.

Somente Deus é juiz de Paulo VI. Mas não se deve negar que seu pontificado foi muito complexo e trágico. Foi sob seu pontificado que, num curso de quinze anos, mais mudanças foram introduzidas na Igreja que em todos os séculos precedentes juntos. O que é preocupante é que quando lemos o testemunho de ex-Comunistas como Bella Dodd, e estudamos documentos maçônicos (datados do século dezenove, e geralmente escritos por sacerdotes dissidentes como Paul Rocca), podemos ver que, em larga extensão, suas agendas foram realizadas: o êxodo de sacerdotes e freiras após o Vaticano II, teólogos dissidentes não censurados, o feminismo, a pressão sobre a Roma para abolir o celibato sacerdotal, imoralidade entre os clérigos, liturgias blasfemas, as mudanças radicais que foram introduzidas na sagrada liturgia (vide Milestones do Cardeal Ratzinger, pp. 126 e 148, Ignatius Press) e um ecumenismo sem rumo. Apenas um cego poderia negar que muitos dos planos do Inimigo têm sido perfeitamente realizados.

Não devemos nos esquecer que o mundo foi abalado com o que fez Hitler. Pessoas como meu marido, porém, perceberam o que estava de fato escrito em Mein Kampf. O plano estava ali. O mundo simplesmente optou por não acreditar. Porém, quão grave esteja a situação, nenhum Católico engajado deve esquecer que Cristo prometeu que Ele estará com Sua Igreja até o fim do mundo. Devemos meditar sobre a cena relatada no Evangelho quando o barco dos apóstolos foi ameaçado por uma forte tempestade. Cristo estava dormindo! Seus seguidores assustados O acordaram: Ele disse uma única palavra e, de repente, tudo se acalmou. “Ó vós, que tendes pouca fé!”


TLM: Segundo suas observações sobre ecumenismo, a senhora não concorda com a política atual de “convergência” ao invés de “conversão”?

AVH: Deixe-me relatar um incidente que causou grande pesar ao meu marido. Era 1946, logo depois da guerra. Meu marido lecionava em Fordham, e ali apareceu numa de suas aulas um estudante Judeu que havia sido um oficial da Marinha durante a guerra. Ele eventualmente contaria ao meu marido sobre um pôr-do-sol extraordinário no pacífico e como isso fê-lo se aproximar da verdade sobre Deus. Primeiro ingressou na Columbia para estudar filosofia, e ele descobriu que isso não era o que procurava. Um amigo lhe sugeriu tentar a filosofia na Fordham e mencionou o nome de Dietrich Von Hildebrand. Depois de apenas uma aula com meu marido, descobriu o que buscava. Um dia, após a aula, meu marido e seu aluno foram dar uma caminhada. Ele disse ao meu marido na ocasião que estava surpreso com o fato de que vários professores, após descobrir que ele era Judeu, asseguraram-lhe que não tentariam convertê-lo ao Catolicismo. Meu marido, estupefato, parou, voltou-se para ele e disse, “Eles disseram o quê?!” O aluno repetiu a história e meu marido lhe disse, “Iria até o fim do mundo para transformá-lo num Católico”. Para resumir a longa história, o jovem se tornou um Católico, foi ordenado sacerdote Católico e ingressou na única Casa dos Cartuchos nos Estados Unidos (em Vermont)!


TLM: A senhora passou muitos anos lecionando em Hunter College.

AVH: Sim, e vários dos meus alunos se tornaram Católicos. Oh, quantas e belas histórias de conversão poderia relatar se tivesse tempo – jovens que foram arrebatados pela verdade! Eu gostaria, entretanto, de deixar claro um ponto.. Não converti meus alunos. O máximo que podemos fazer é rezar para sermos instrumentos de Deus. Para sermos instrumentos de Deus, devemos nos esforçar para viver diariamente o Evangelho em todas as circunstâncias. Apenas a graça de Deus pode nos conceder o desejo e capacidade para tanto.

Eis um dos temores que tenho em relação aos Católicos tradicionais. Algum flerte com o fanatismo. Um fanático é aquele considera a verdade sua posse ao invés de dom de Deus. Somos servos da verdade, e é como servos que devemos procurar partilhá-la. Estou ciente de que há Católicos fanáticos que usam a Fé e a Verdade que proclamam como um instrumento intelectual. Uma autêntica apropriação da verdade sempre leva ao esforço para a santidade. A Fé, nesta crise atual, não é um jogo de xadrez intelectual. Para aqueles que não se esforçam para a santidade, a fé se reduzirá a isso. Tais pessoas fazem mais mal à Fé, particularmente se estes são defensores da Missa tradicional.


TLM: Então a senhora acha que o único cenário para uma solução da crise atual é a renovação de um esforço para a santidade?

AVH: Não devemos nos esquecer que estamos lutando não apenas contra carne e sangue, mas contra “poderes e principados”. Isso deveria nos provocar suficiente temor para esforçarmo-nos mais que nunca para a santidade, e orar fervorosamente que a Santa Esposa de Cristo, que se encontra agora no Calvário, saia dessa terrível crise mais radiante que nunca. A resposta Católica é sempre a mesma: absoluta fidelidade aos santos ensinamentos da Igreja, fidelidade à Santa Sé, freqüente recepção de sacramentos, Rosário, leitura espiritual diária, e gratidão por termos recebido a plenitude da revelação de Deus: “Gaudete, iterum dico vobis, Gaudete.”


TLM: Não posso terminar a entrevista sem fazer à senhora uma pergunta já um tanto desgastada. Há críticos da antiga Missa latina que indicam que a crise na Igreja se desenvolveu no tempo em que a Missa era oferecida no mundo inteiro. Por que deveríamos achar que o seu retorno é intrínseco para a solução da crise?

AVH: O demônio odeia a antiga Missa. Ele a odeia porque é a mais perfeita reformulação de todos os ensinamentos da Igreja. Foi meu marido que me deu essa intuição sobre a Missa. O problema que provocou o crise atual não foi a Missa Tradicional. O problema é que os sacerdotes que a ofereciam já haviam perdido o sentido do sobrenatural e transcendente. Eles se apressavam em fazer as orações, murmuravam e não as enunciavam. Eis um sinal que introduziram à Missa com o seu crescente secularismo. A antiga Missa não permitia espaço para irreverência, e é por isso que muitos sacerdotes se sentiram felizes em se desvencilhar dela.


TLM: Obrigado, Dra. Von Hildebrand por esta oportunidade de conversar com a senhora.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

No descompasso da Igreja

Em dezembro de 2007 Dom Vilson Dias de Oliveira, bispo de Limeira, concedeu uma entrevista ao "Jornal de Limeira". Tomei conhecimento agora através do blog Fratres in Unum.

Embora já tenha mais de ano essa entrevista, gostaria de tecer alguns comentários aqui sobre os dizeres de Dom Vilson.

Nessa entrevista, entre outras coisas, ele foi questionado sobre a liberação da Missa Tridentina, a ordenação de mulheres e a Teologia da Libertação. Nos três casos o senhor bispo ou mentiu, ou omitiu, ou está completamente desinformado sobre o que acontece na Santa Igreja.

Sobre a Missa, afirma Dom Vilson: "O papa tentou responder para comunidades mais tradicionais. Na verdade, existem grupos no mundo hoje que têm essa linha tradicionalista, de poder rezar em latim. Acho que o papa tentou não desmerecer esse pessoal e deixou em aberto. Agora, isso não quer dizer que na Diocese de Limeira vai ter missa em latim. Diria que depois do Concílio (2º Concílio do Vaticano, em 1963), quando se celebraram as missas em português, as pessoas passaram a participar mais. Felizmente não temos esses grupos ultraconservadores na diocese. Eu não faria polêmica em torno dessa história. Rezamos na nossa língua e vamos continuar assim. Vamos ter missa em português e ponto final. Desde o Vaticano 2º houve muitos avanços".

Primeiro - foi um capricho dos reformadores liturgicos, e não do Concílio, a total liberação do vernáculo na liturgia, o que era para ser excessão virou regra. O Concílio na verdade mandou que se mantivesse o latim na Missa.

Segundo - sobre as intenções do Santo Padre ao publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, afirma o Cardeal Cañizares (prefeito da Congregação para o Culto Divino e antigo colaborador do Papa, a ponto de ser conhecido como "o pequeno Ratzinger") ao prefaciar o livro A Reforma de Bento XVI: "a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, mas também, e de maneira especial, abrir a riqueza litúrgica da Igreja A TODOS OS FIÉIS, tornando possível assim a descoberta dos tesouros do patrimônio litúrgico da Igreja a quem ainda o ignora. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.

Será que é necessário acrescentar algo às palavras do Cardeal?

Em outro momento, e este é o mais grave, Dom Vilson se sai com essa sobre o sacerdócio feminino: "Agora, você vai dizer: "amanhã pode acontecer?". Pode ser, você tem que respeitar a caminhada da Igreja, o tempo. Por enquanto, a Igreja diz que não, por enquanto não posso levantar uma bandeira e dizer "faça isso". Eles olham a experiência do passado para olhar essa questão. Diria o seguinte: na América Latina, a mulher hoje participa muito mais, tem maior presença da Igreja, é mais engajada, mais participante. Ela não é só maior em número, ela tem maior participação nos ministérios da igreja".

Será que ele desconhece a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II?

Nela o Papa de venerável memória afirma: "Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja".

Por fim, Dom Vilson ainda faz um afago nessa praga dos infernos chamada Teologia da Libertação, que já foi devidamente condenana pela Santa Sé. Afirma ele que trata-se de uma teolgia como qualquer outra e quem tem seus méritos. E ainda contraria o óbvio ululante, contraria os fatos históricos ao afirmar que a Teologia da Libertação não ajudou a fundar o PT! Até os inglesas da "The Economist" sabem disso!

É no mínimo curiosos a maneira como Dom Vilson se comporta nesses três casos. Aquilo que o Papa libera, o bispo condena de forma taxativa: "Vamos ter missa em português e ponto final". Aquilo que os Papa condenam, o bispo leva em consideração: "a ordenação de mulheres é possível e a Teologia da Libertação tem seus méritos".

Dom Vilson parece seguir à risca o modo de agir da CNBB (conforme já escrevi aqui), que condena o que não precisa e é omissa ou ambígua com o que deveria condenar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Prefácio do Cardeal Cañizares

Publico abaixo o excelente prefácio escrito pelo Cardeal Cañizares para o livro "A Reforma de Bento XVI - a liturgia entre a inovação e a tradição".

Destaco as seguintes palavra do Cardeal: "[devemos todos] aproveitar o que o Santo Padre – quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger – escreveu sobre o tema, especialmente em seu belíssimo livro Introdução ao Espírito da Liturgia, enriquecer-se com o modo com que o Santo Padre – assistido pela Oficina das celebrações litúrgicas presidida pelo Mons. Guido Marini, e da qual é consultor o autor deste livro – celebra a liturgia. Estas liturgias pontifícias são exemplares para todo o orbe católico. "


Com efeito, Bento XVI está pondo à mostra todo o tesouro liturgico da Igreja. Só não vê esse tesouro quem precisamente não quer ver...

Deus nos deu a imensa graça de termos em momento oportuno um Papa apaixonado por liturgia, que zela por ela, que a celebra com todo o amor e dignidade. Aos poucos o Santo Padre está restaurando em suas celebrações paramentos, gestos, disposições do altar, entre outras coisas que tristemente foram se perdendo no tempo. Mais do que com palavras, ele está ensinando com seu próprio exemplo!










A edição espanhola do livro "A Reforma de Bento XVI" de don Nicola Bux é prefaciado pelo Cardeal Cañizares.









Prefácio do Cardeal Cañizares:


Desde a publicação deste livro até a presente edição espanhola não passaram mais que uns poucos meses. Todavia, a transcendência de certos fatos ocorridos neste lapso de tempo modificou enormemente o “clima” em torno de sua temática, especialmente pelo ambiente de controvérsia que se criou em razão do levantamento das excomunhões dos quatro bispos ordenados há vinte anos por Dom Lefebvre. Este gesto de misericórdia gratuita do Santo Padre para tornar possível a sua plena inserção eclesial, que demonstra com fatos que a Igreja não renega sua tradição, fez com que a “Missa Tradicional” acabe ligada a um problema disciplinar e, pior ainda, político.

Como consequência, existe o risco de uma desfiguração do sentido profundo do Motu Proprio de 7 de julho de 2007; um gesto de extraordinário sentido comum eclesial pelo qual se reconheceu o valor pleno de um rito que nutriu espiritualmente a Igreja Ocidental durante séculos.

Não há dúvida de que um aprofundamento e uma renovação da liturgia eram necessários.

Porém, com frequência, está não foi uma realização perfeitamente alcançada. A primeira parte da constituição Sacrosanctum Concilium não entrou no coração do povo cristão. Houve uma mudança nas formas, uma reforma, não, porém uma verdadeira renovação, tal e como pediam os Padres conciliares. Às vezes, mudou-se pelo simples gosto de mudar um passado percebido como totalmente negativo e superado, concebendo a reforma como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Isto criou reações e resistências desde o princípio, que em alguns casos se concretizaram em posições e atitudes que levaram a soluções extremas, inclusive a ações concretas que implicavam penas canônicas. É urgente, entretanto, distinguir o problema disciplinar surgido de atitudes de desobediência de um grupo, do problema doutrinal e litúrgico.

Se cremos de verdade que a Eucaristia é realmente a “fonte e o ápice da vida cristã” – como nos recorda o Concílio Vaticano II – não podemos admitir que seja celebrada de um modo indigno. Para muitos, aceitar a reforma conciliar significou celebrar uma Missa que de um modo ou de outro devia ser “dessacralizada”. Quantos sacerdotes vimos ser tratados como “retrógrados” ou “anticonciliares” pelo simples fato de celebrarem de maneira solene, piedosa ou simplesmente por obedecerem cabalmente às rubricas! É peremptório sair desta dialética.

A reforma foi aplicada e principalmente vivida como uma mudança absoluta, como se se devesse criar um abismo entre o pré e o pós Concílio, em um contexto em que o termo “pré-conciliar” era usado como um insulto. Aqui também se deu o fenômeno que o Papa observa em sua recente carta aos bispos de 10 de março de 2009: “Às vezes se tem a impressão de que nossa sociedade tenha necessidade de um grupo, ao menos, com o qual não tenha tolerância alguma, o qual se pode atacar com ódio”. Durante este ano foi o caso, em boa medida, dos sacerdotes e fiéis ligados à forma de Missa herdada através dos séculos, tratados muitas vezes como “leprosos”, como dizia de forma contundente o então cardeal Ratzinger.

Hoje em dia, graças ao Motu Proprio, esta situação está mudando notavelmente. E em grande medida está acontecendo porque a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, MAS TAMBÉM, E DE MANEIRA ESPECIAL, ABRIR A RIQUEZA LITÚRGICA DA IGREJA A TODOS OS FIÉIS, TORNANDO POSSÍVEL ASSIM A DESCOBERTA DOS TESOUROS DO PATRIMÔNIO LITÚRGICO DA IGREJA A QUEM AINDA O IGNORA. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.

Foi dito também que tais prescrições seriam um “atentado” contra o Concílio, isto, porém mostra um desconhecimento do mesmo Concílio, cuja intenção de dar a todos os fiéis a ocasião de conhecer e apreciar os múltiplos tesouros da liturgia da Igreja é precisamente o que desejou ardentemente esta magna assembleia: “O Sacrossanto Concílio, apegando-se fielmente à tradição, declara que a Santa Mãe Igreja atribui igual direito e honra a todos os ritos legitimamente reconhecidos e quer que no futuro sejam conservados e fomentados por todos os meios” (SC 4).

Por outro lado, estas disposições não são uma novidade; a Igreja sempre as manteve, e quando ocasionalmente não foi assim, as consequências foram trágicas. Não apenas foram respeitados os ritos do Oriente, mas também no Ocidente dioceses como Milão, Lyon, Colônia, Braga e diversas ordens religiosas conservaram pacificamente seus diversos ritos através dos séculos. Porém, o antecedente mais claro da situação atual é, sem dúvida, a Arquidiocese de Toledo. O Cardeal Cisneros usou de todos os meios para conservar como “extraordinário” na arquidiocese o rito moçárabe que estava em vias de extinção; não somente fez imprimir o Missal e o Breviário, como criou uma capela especial na Igreja Catedral, onde se celebra ainda hoje cotidianamente neste rito.

Esta variedade ritual não significou nunca, nem pode significar, diferença doutrinal, mas pelo contrário, põe em relevo uma profunda identidade de fundo. Entre os ritos atualmente em uso é necessário que se dê também esta mesma unidade. A tarefa atual, tal e como nos indica o presente livro de don Nicola Bux, é pôr em evidência a identidade teológica entre a liturgia dos diversos ritos que foram celebrados através dos séculos e a nova liturgia fruto da reforma, ou ainda, se esta identidade se houvesse desfigurado, recuperá-la.

A Reforma de Bento XVI é, pois, um livro rico em dados, reflexões e ideias, e dentre os múltiplos assuntos nele tratados gostaria de ressaltar alguns pontos:
O primeiro é acerca do nome com o qual chamar a esta Missa. O autor propões chamá-la, ao estilo oriental, “liturgia de São Gregório Magno”. É talvez melhor que dizer simplesmente “gregoriana”, pois pode prestar-se a um duplo equívoco (que poderia em todo caso evitar-se com a denominação “dâmaso-gregoriana”). Também é mais conveniente que “Missa tradicional”, onde o adjetivo corre o perigo de contaminar-se com uma carga ou bem polêmica ou bem “folclórica”; ou que “modo extraordinário”, que é uma denominação demasiadamente extrínseca. “Usus antiquior” tem o defeito de ser uma referência meramente cronológica.

Por outro lado, “usus receptus” seria muito técnico. “Missal de São Pio V” ou “do Beato João XXIII” são termos demasiadamente limitados. O único inconveniente é que no rito bizantino já há uma liturgia de São Gregório, Papa de Roma; a dos dons pré-santificados usado na quaresma.

Em segundo lugar, o fato de que o uso seja “extraordinário” não deve significar que deva ser usado somente por sacerdotes e fiéis que se ligam ao modo extraordinário. Como propõe o padre Bux, seria muito positivo que quem celebra habitualmente no modo “ordinário”, o faça também, extraordinariamente, no “extraordinário”. Trata-se de um tesouro que é herança de todos e ao qual, de uma maneira ou de outra, todos deveriam ter acesso. Por isso, poder-se-ia propor especialmente para ocasiões em que há alguma riqueza peculiar do antigo missal que se pode aproveitar (sobretudo se no outro calendário não há nada especialmente previsto): por exemplo, para o tempo da Septuagésima, para as quatro Têmporas ou para a Vigília de Pentecostes e, talvez, até no caso de certas comunidades especiais, tanto de vida consagrada como confrarias ou irmandades. A celebração “extraordinária” também seria de grande utilidade para os ofícios da Semana Santa, ao menos em alguns deles, pois todos os ritos conservam no Tríduo Sagrado cerimônias e orações que remontam a épocas mais antigas da Igreja.

Outro ponto que é necessário destacar é a atitude de Bento XVI; não constitui tanto uma novidade nem câmbio de rumo de governo, mas sim leva à sua concretização o que já João Paulo II havia empreendido como iniciativas tais como o documento papal Quattuor abhinc annos, a consulta à comissão de Cardeais, o Motu Proprio Ecclesia Dei e a criação da Comissão de mesmo nome, ou as palavras dirigidas à Congregação do Culto Divino (2003).

Algo que se deve urgentemente ter em conta é a repercussão ecumênica destas discussões; as críticas dirigidas ao rito recebido da tradição romana alcançam também a outras tradições e sobretudo a dos irmãos ortodoxos. Quase todos os ataques dos que se opõem à reintrodução do missal antigo são precisamente ataque aos lugares que temos em comum com os orientais! Um sinal que confirma este fato são as expressões positivas do recentemente falecido Patriarca de Moscou ao publicar-se o Motu Proprio.

Não é um dos aspectos menos importantes deste livro o fato de que nos ajude a tomar consciência dos diversos aspectos da situação em que nos encontramos atualmente. Nossa geração enfrenta grandes desafios em matéria litúrgica: ajudar toda a Igreja a seguir plenamente o que indicou o Concílio Vaticano II na constituição Sacrosanctum Concilium e o que o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a liturgia, aproveitar o que o Santo Padre – quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger – escreveu sobre o tema, especialmente em seu belíssimo livro Introdução ao Espírito da Liturgia, enriquecer-se com o modo com que o Santo Padre – assistido pela Oficina das celebrações litúrgicas presidida pelo Mons. Guido Marini, e da qual é consultor o autor deste livro – celebra a liturgia. Estas liturgias pontifícias são exemplares para todo o orbe católico.

Por último, acrescento que seria de grande importância que tudo isto se expusesse com profundidade nos seminários como parte integrante da formação para o sacerdócio, para proporcionar um conhecimento teórico-prático das riquezas litúrgicas, não somente do rito romano, mas também, na medida do possível, dos diversos ritos do Oriente e do Ocidente, e assim criar uma nova geração de sacerdotes livres de preconceitos dialéticos.

Oxalá este valioso livro de don Nicola Bux sirva para conhecer melhor as intenções do Santo Padre e descobrir as riquezas da herança recebida e, desse modo, para iluminar-nos em nossa ação. Para isto, peçamos ao Senhor saber interpretar, como dizia Paulo VI, os “sinais dos tempos”.

+ Antonio, cardeal Cañizares




sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Santa Missa, nosso maior tesouro

É bem sabido para qualquer católico que se preze que a Santa Missa é nosso maior tesouro. Tesouro este que nos dias de hoje, infelizmente, não está ao nosso alcance com facilidade, na igreja mais próxima. Muitas vezes precisamos ir em busca desse tão grande tesouro...

No último sábado à noite, dia 18/02/09, eu, minha esposa e meu filho viajamos até a região de Campinas, mais precisamente a cidade de Sumaré, para visitar a avó de minha esposa. O plano era, no domingo, assistir a Santa Missa pela manhã, almoçar e no final da tarde voltarmos para São Paulo. Assim o fizemos...

Como decidimos já no sábado à noite a fazer essa visita, não tive tempo de confirmar o endereço e os horários das missas na Capela São Tomás de Aquino (fotos e informações aqui e aqui), que vi receber elogios no site Salvem a Liturgia, só sabia que ficava na escola de cadetes em Campinas. Fiquei um tanto decepcionado por ir tão próximo e não conhecer a capela, mas conformei-me em deixar para uma próxima oportunidade.

No domingo pela manhã fomos até a Paróquia São Miguel Arcanjo. Logo ao entrar, preocupou-me o fato de no lugar da imagem de Cristo crucificado, existir uma imagem de Cristo ressuscitado. Pensei comigo: bem, isso tanto pode significar um duvidoso gosto estético do pároco, quanto pode significar uma negação do sacrifício de Cristo por parte do mesmo (se duvida que isso seja possível, clique aqui para ler uma aterradora notícia). Após os acontecimentos, temo que ele se enquadre na segunda hipótese...

A banda ensaiava em alto e bom som...

Alguns minutos antes da Missa surge o sacerdote, que depois descobri o nome: Conêgo José Veríssimo Cibinel. Enquanto atravessava o presbitério, ajeitava-se dentro de sua alva que de tão amassada parecia ter sido retirada de dentro de uma apertada garrafa... E eu, de onde estava, podia ver que dentro da sacristia um grupo de mais ou menos sete pessoas vestiam capas com o mesmo recorte da dalmática utilizada pelos diáconos, eram leitores, comentaristas, MEC's, etc.

Minha esposa me faz uma tentadora proposta: "Vamos embora, procuramos outra igreja e assistimos a Missa à tarde". Eu, teimoso, insisto em ficar...

Começa a procissão de entrada, o Côn. José Veríssimo entra alegremente batendo palmas e acenando para as crianças, nem de longe parecia que iria "subir ao altar de Deus", como possivelmente rezou em sua primeira Missa.

Ao tomar o microfone, tive certeza que deveria ter aceitado a proposta de minha esposa. Se expressava pessimamente para um sacerdote. Então ele anunciou e um grupo de crianças chamados de "Pequeninos do Senhor" entrou em procissão.

O referido sacerdote se expressa da seguinte maneira em relação àquele grupo de crianças: "Eles vão celebrar a Missa ao modo deles lá no salão, pois se ficarem aqui não vão entender nada, não vão aproveitar nada, então vão lá celebrar a Missa deles. Mas só vão as meninas bonitas, as feias podem ficar aqui na igreja; e só vão os meninos espertos, os vagabundos também vão ficar aqui .... hahahahahaha".

O absurdo começa com a afirmação de que crianças vão "celebrar a missa ao modo delas", depois pensei o quão triste é um sacerdote por pra fora da igreja as crianças, elas que desde cedo deveriam se acostumar a estar na casa de Deus e a assistir a Santa Missa. Por outro lado, comecei a pensar que não estar ali na igreja seria até benéfico para elas, as pouparia de verem tanta bagunça e desrespeito para com a Liturgia, evitando que aprendam errado o que é a Missa.

Iniciada a celebração, o padre pula arbitrariamente o Ato Penitencial, indo direto para o canto do Glória (que seguindo o triste e errado costume atual no Brasil, teve sua letra alterada).

Após as leituras, Côn. José Veríssimo anuncia "Evangelho de Jesus Cristo segundo João" e vai para o centro do presbitério, então começa a narrar o Evangelho com suas próprias palavras!!! Quando chega no momento em que Nosso Senhor no Evangelho diz aos apóstolos "A paz esteja convosco!", o padre faz um sinal para a banda e essa passa a cantar "A paz esteja contigo, a paz esteja comigo, a paz esteja com ele, com ela e com todos os irmãos...".

Foi a gota d'agua!

Temendo o que poderia acontecer dali em diante, mais especificamente na consagração, olhei para minha esposa e disse: "Vamos?", ela concordou e nos retiramos. Foi a primeira vez que me retirei de uma igreja no meio da Santa Missa por causa de abusos, embora já tenha suportado muita coisa, mas nunca tinha visto tamanho indiferença e desrespeito com a Sagrada Liturgia.

Voltamos para a casa da avó de minha esposa. Comentei com um dos tios dela sobre a Capela São Tomás de Aquino na Escola de Cadetes. Ele disse que conhecia a Escola e que não ficava longe de onde estávamos, e ainda se ofereceu para ir comigo de moto até lá naquele momento, assim eu poderia conhecer o caminho e o horário da missa da tarde. Providência de Deus!

Então eu, que definitivamente não morro de amores por motos, me vi na garupa de uma, em plena Rodovia Anhanguera, em busca do Sacrifício de Cristo dignamente celebrado.

Caminho aprendido, horário confirmado, lá fomos nós à noite na Capela São Tomás de Aquino.

As fotos que indiquei acima testemunham a beleza da capela e a dignidade com que o pe. João Batista celebra o Santo Sacrifício da Missa. Música tranquila e de acordo com a liturgia, comunhão de joelhos e na boca, a consagração e a doxologia em latim, com direito a "Ite Missa est, Aleluia / Deo gratias, Aleluia" cantado no final.

Uma celebração simples, mas feita com muito zelo e dignidade. Depois do terrorismo liturgico que presenciei pela manhã, me vi no céu!

Enfim, por graça e providência de Deus, meu domingo foi salvo.

Rezemos pelo Conêgo José Veríssimo Cibinel para que possa ver o mal que está fazendo a seus paroquianos e passe então a celebrar com zelo e dignidade, nunca se esquecendo que deve celebrar cada Missa como se fosse a primeria, como se fosse a última, como se fosse a única!

Rezemos também pelo pe. João Batista, para que se mantenha firme na fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Santa Igreja.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dom Malcolm Ranjith fala em "reforma da reforma" litúrgica

Em notícia divulgada pela Catholic World News (CWN) o arcebispo do Sri Lanka e secretário da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Dom Malcolm Ranjith, comentou sobre a necessidade de se "reformar a reforma" litúrgica, que em pouco ou nada seguiu as orientações do Concílio Vaticano II.

Não é de hoje que d. Ranjith coloca em público suas opiniões sobre liturgia. Quem quiser pode ler uma antiga, mas interessante, entrevista desse bispo para a revista 30 Dias.

A tradução da notícia da CWN para o português é da Associação Cultural Montfort. Os destaques sublinhados e em negrito são meus.

Uma autoridade chave do Vaticano pediu por decisões “ousadas e corajosas” para corrigir os abusos litúrgicos que surgiram desde as reformas do Vaticano II.

O Arcebispo Malcolm Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino, diz que um entendimento falho dos ensinamentos do Vaticano II e a influência das ideologias seculares são as razões para se concluir que – como disse o então Cardeal Joseph Ratzinger em 1985 – “o verdadeiro tempo do Vaticano II ainda não chegou”. Particularmente no campo da liturgia, o Arcebispo Ranjith diz, “A reforma tem que continuar”.

O Arcebispo Ranjith, que foi pessoalmente chamado para o Vaticano pelo Papa Bento XVI para ajudá-lo como um aliado na busca pela restauração do senso de reverência na liturgia, fez este comentário no Prefácio de um novo livro baseado nos diários e anotações do Cardeal Fernando Antonelli, que foi uma figura chave no movimento de reforma litúrgica, tanto antes quanto depois do Vaticano II.

Sobre os escritos do Cardeal Antonelli, o Arcebispo Ranjith diz, que ajudam o leitor “a entender o complexo trabalho interno da reforma da liturgia antes da imediata aplicação do Concílio.” Essa autoridade do Vaticano conclui que a implementação das reformas sugeridas pelo Concílio muitas vezes passou longe das verdadeiras intenções dos padres do Concílio. Como resultado, o Arcebispo Ranjith conclui, a liturgia hoje não é uma verdadeira realização da visão proposta no documento litúrgico essencial do Vaticano II, a Sacrosanctum Concilium.

Especificamente o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve: “Algumas práticas que o Sacrosanto Concílio nunca sequer tinha especulado foram permitidas dentro da liturgia, como a Missa voltada para o povo, a Sagrada Comunhão na mão, incluindo a desistência do Latim e do Canto Gregoriano a favor do vernáculo e de canções e hinos sem espaço para Deus, e a ampliação além de qualquer limite razoável da faculdade de concelebrar a Santa Missa. Houve também um erro grosseiro de interpretação do princípio da “participação ativa”.

O prelado do Sri Lanka argumenta que para executar a “reforma da reforma” é essencial reconhecer como a visão litúrgica do Vaticano II se tornou distorcida. Ele exalta o livro sobre o Cardeal Antonelli por permitir o leitor ganhar um melhor entendimento de “quais nomes ou atitudes causaram a presente situação”. Isto, diz o arcebispo, é um exame “que, em nome da verdade, não podemos abandonar”.

Enquanto reconhece “o humor turbulento dos anos que imediatamente seguiram o Concílio”, o Arcebispo Ranjith lembra os leitores que ao chamar todos os bispos do mundo para um concílio ecumênico, o Beato João XXIII pretendia “uma fortificação da fé”. O Concílio aos olhos do Papa João “certamente não foi um chamado para fazer as pazes com o espírito dos tempos”.

Entretanto, continua ele, o Concílio aconteceu num tempo de grande comoção intelectual mundial, e especialmente na sua conseqüência, muitos seriam os interpretes que viram o evento como uma ruptura com a tradição anterior da Igreja. Como o Arcebispo Ranjith colocou:

Conceitos básicos e temas como Sacrifício e Redenção, Missão, Anúncio e Conversão, a Adoração como um elemento integral da Comunhão, e a necessidade da Igreja para a salvação – todos foram postos de lado, enquanto Diálogo, Inculturação, Ecumenismo, Eucaristia como Ceia, Evangelização como Testemunha, etc., se tornaram mais importantes. Os valores absolutos foram desprezados. Mesmo no trabalho do Consilium, o Vaticano se atribui a função de implementar as mudanças litúrgicas, estas influencias foram claramente sentidas, o arcebispo nota: “Um senso exagerado do antiquado, antropologismo, a confusão de papéis entre pessoas ordenadas e não ordenadas, uma permissão sem limites de espaço para a experimentação – e de fato, a tendência para desprezar alguns aspectos do desenvolvimento da Liturgia no segundo milênio – foram incrivelmente visíveis entre certas escolas litúrgicas".


Hoje, o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve, a Igreja pode olhar para trás e reconhecer as influências que distorceram a intenção original do Concílio. Este reconhecimento, ele diz, deveria “ajudar-nos a sermos corajosos para melhorar ou mudar aquilo que foi erroneamente introduzido e que parece incompatível com a verdadeira dignidade da Liturgia. Uma “reforma da reforma” por demais necessária, ele argumenta, deveria ser inspirada “não pelo mero desejo de corrigir os erros passados, mas muito mais pela necessidade de ser verdadeira para o que a Liturgia de fato significa para nós e o que o Concílio mesmo definiu para ser.”

O Prefácio de 10 páginas do Arcebispo Malcolm Ranjith aparece na edição na língua inglesa do livro intitulado “O Verdadeiro Desenvolvimento da Liturgia”escrito por Monsenhor Nicola Giampietro, que faz parte do quadro de pessoal da Congregação para o Culto Divino. Ele estará disponível em Setembro, nos Livros Católicos Romanos.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O uso do véu!




Embora não me seja estranho frequentar missas onde seja comum o uso do véu, confesso que me tocou a iniciativa desses jovens de incentivar e divulgar o uso dessa peça durante a Santa Missa.

Estou falando do blog Velatam ad Dei Gloriam.

E antes que alguém diga com desdém: "são apenas nostálgicos!" Não, não são! E se apressam em afirmar: "são jovens adoradores, que não vivem isso por mera "nostalgia”, pois não chegaram a conhecer o tempo em que isso era comum. Vivem porque sabem que fazem parte de uma Igreja que tem uma tradição de 2000 anos(...)" (o destaque é meu)

Registro aqui minha alegria em verificar que a Tradição da Igreja vive, e vive especialmente nos jovens. Não são pessoas que estão com saudades dos "velhos tempos" ou que não quiseram "mudar"... São jovens que desejam resgatar a sacralidade perdida nas últimas e turbulentas décadas, e estão de fato trabalhando para que isso aconteça.

São jovens que vivem, como afirma o blog, "sob a sombra do gigante Bento XVI". Ao ver jovens tão... tão... católicos!, muitos se assustam, reclamam até, muitas vezes as críticas partem dos que ajudaram muito a destruir o patrimônio católico.

Sintomática essa afirmação de que são jovens que vivem "sob a sombra do gigante Bento XVI". Este Papa tem feito uma verdadeira revolução na Santa Igreja. Para quem dizia que ele, tímido e idoso, faria apenas um pontificado de transição... Que nada! E pra quem também dizia que sua falta de carisma o impediria de chegar aos jovens como João Paulo II, erraram novamente. Ele, de fato, pode não ser tão carismático como era o pontífice anterior, mas a verdade atrai por sim mesma, e a força de suas palavras somadas às sua atitudes corajosas têm atraído especialmente os jovens.

A propósito, sou da opinião de que podemos estar diante do Papa que, conforme sonhou Dom Bosco, está reconduzindo a Nave da Igreja de volta às colunas de Nossa Senhora e da Sagrada Hóstia (não sabe do que estou falando? leia aqui).

Rezemos pelo Santo Padre, que vem combatendo valentemente pela Igreja, pela Fé.

Rezemos por esses jovens que entre outras coisas estão "restaurando o uso do véu. São meninos e meninas que amam, e são apaixonados por Jesus Eucarístico e pela Santa Igreja. São meninas que usam véu, e meninos que apóiam o uso e são para elas suporte para enfrentar os “olhares tortos” – olhares estes que são compensados por muitos olhares comovidos de gente de mais idade, que se surpreende e vê nelas a presença de uma sacralidade que ainda existe em nossas igrejas".

A propósito sobre o uso do véu, coloco abaixo um vídeo muito ilustrativo sobre o tema. O vídeo, desenvolvido pela Diocese de Manila (FIlipinas), demonstra que o uso do véu não pode se tornar um mero modismo. Ele deve ser um sinal externo de uma disposição interna da mulher. Usar o véu e trajar roupas inadequadas não tem sentido.





sexta-feira, 4 de julho de 2008

Novidades litúrgicas

A notícia abaixo é uma tradução bastante livre do blog Rorate Caeli.


Ignazio Ingrao, religioso correspondente do jornal italiano Panorama.

BENTO XVI MUDA A MISSA

O rito da Missa pode mudar. De acordo com alguns boatos, Bento XVI solicitou a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos um estudo para algumas modificações na liturgia. Em particular, o Papa disse ter intenção de restaurar o latim na fórmula da consagração da Eucaristia, mantendo o restante da Missa em vernáculo. O mesmo pode acontecer nas fórmulas do Batismo, Confirmação, Confissão e nos demais sacramentos. Não obstante, também mudaria o momento do "rito da paz", que hoje é antes da Comunhão, para o ofertório (como no rito Ambrosiano) o que evetitaria os distúrbios no recolhimento necessário para receber a Comunhão.

Essas mudanças seriam adicionadas às mudanças na liturgia e nos paramentos que Papa, juntamente com seu Mestre de Cerimônias Mons. Guido Marini, têm feito recentemente para recuperar antigas tradições: restauração do crucifixo no centro do altar, a distribuição da Comunhão para os fiéis na boca e de joelhos, o restabelecimento do báculo de Pio IX (the férula), a mudança no estilo do pallium, a restauração do trono papal usado no Consistório e a celebração da Missa versus Deum (como aconteceu em Janeiro na Capela Sistina).

Muitos Padres Conciliares acreditavam que essa seria, em suma, a reforma da Missa: na maior parte em vernáculo e o (e somente um) Cânon Romano continuaria em latim. De fato, a Constituição Sacrossanctum Concilium não parece prever o uso do vernáculo no Cânon.



Não sabemos até onde a notícia é verdadeira, mas é fato que o Papa sempre se mostrou incomodado com os rumos que a reforma liturgica tomou. Os exemplos citados por Ignazio Ingrao demonstram que Bento XVI tem trabalhado naquilo que ele, já bem antes de ser papa, afirmava ser necessário: uma reforma da reforma liturgica verdadeiramente de acordo com o desejo dos Padres do Concílio Vaticano II.

Vamos aguardar os próximos acontecimentos.

Rezemos pelos Santo Padre.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Beleza e silêncio na liturgia

Já comentei antes que esse blog não é exclusivamente sobre Liturgia, mas que posso fazer se o tema é tão belo e fascinante? =)

Em entrevista concedida a ZENIT, a professora de arte Cristina Langer falou sobre a beleza da liturgia. Ela tratou do mesmo tema em conferência no Simpósio Teológico comemorativo do centenário da diocese de Ribeirão Preto (São Paulo).

Recomendo a leitura completa dessa entrevista, mas aqui gostaria de ressaltar dois pontos.

Afirma a professora Cristina que "Na Liturgia a beleza é o próprio motivo pelo qual a celebração se dá: para Deus, com Ele e Nele. Qualquer motivo que não seja este esconde a Beleza presente ao invés de revelá-la".

Eis um conceito que está bastante deturpado atualmente: a Missa é para Deus, com Deus e em Deus. Hoje, por má fé ou por má formação, muitas vezes se celebra a Missa pensando-se mais em agradar o povo do que a Deus, esquecendo do fim principal dela.

E, conforme afirma a professora Cristina, quando tristemente se perde essa referência, ou melhor, quando se troca essa referência, quando Deus deixa de ser o centro, toda a beleza da liturgia se esvai...

Esse ponto me fez lembrar algo que li na biografia do Papa escrita pelo vaticanista Andrea Tornielli: "Bento XVI - O Guardião da Fé". Nesse livro o autor cita vários trechos de livros escritos pelo então cardeal Jospeh Ratzinger, sendo que a citação abaixo consta em sua autobiografia (o destaque é meu):

"Deste modo, desenvolveu-se, de fato, a impressão de que a liturgia seja 'feita', que não seja algo cuja existência nos precede, algo que nos 'é dado', mas algo que depende das nossas decisões. Disto se segue, como consequência, que não se reconheça essa capacidade de decisão só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas que, definitivamente, qualquer 'comunidade' queira se dar uma liturgia própria. Mas, quanda uma liturgia é algo que qualquer um faz por si mesmo, então desaparece aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida."

Essa perda da noção de mistério da Missa, de sua sacralidade e de que é, como ressalta Joseph Ratzinger, algo que nos precede, que não podemos manipulá-la livremente, pois a recebemos da Igreja, de Deus!, tem reflexos terríveis na fé do povo e na própria compreensão do que seja a Missa.

Por uma péssima interpretação da reforma desejada pelo Concílio Vaticano II e das possibilidades de escolha oferecidas pelo atual Missal, o que tem ocorrido com extrema frequência são liturgias criadas a partir de preferências do sacerdote, do liturgista ou do povo; menos liturgias conforme "nos foi dado" por aquela que é quem de fato determina o que deve e o que não deve ser feito: a Igreja.

Conforme tem sido feito, a beleza e o mistério da Missa desaparece... E o que fica? Ou melhor, o que substitui o mistério, "fonte de nossa vida"? Sim, porque o essencial da Missa sendo retirado ela deixa de atrair as almas, pois é Cristo elevado quem atrai (Jo 12,32). Ainda que a Eucaristia ainda esteja lá, tanto entulho é jogado sobre ela, que acaba por se perder suas inúmeras graças. Seria impossível listar aqui o que se antepõe à Eucaristia, tamanhã a criatividade aliada a desobediência: músicas barulhentas e muitas vezes heréticas, teatros, danças, confraternizações com "a pessoa que está do seu lado", etc... etc.. etc... E Deus? Se perdeu em meio a tanta criatividade...

"A liturgia não se tornará nova, pessoal e verdadeira, através de invenções de palavras e brincadeiras banais, mas sim pela coragem dos que se põe a caminho para alcançar o Imenso; aquilo que, através do rito, desde sempre nos precedeu e que nós nunca conseguiremos apanhar." (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 126, ed. Paulinas).

Um outro aspecto levantado pela professora Cristina diz respeito ao silêncio: "A própria Liturgia tem na sua sequência uma série de momentos de silêncio, que não são espaços vazios de tempo, mas espaços de tempo repletos da Presença. Ao preencher estes momentos com músicas ou palavras supérfluas, encobrimos o Essencial".

E como as músicas têm preenchido a liturgia... Músicas tem substituido até trechos que não poderiam ter suas letras alteradas, como o Glória e o Pai-Nosso! Ou ainda, quantas músicas são cantadas nas Missas com letras absolutamente heréticas! Cria-se até Missas para agradar gostos específicos, eu mesmo já tive a infeliz experiência de assistir a uma Missa Heavy-Metal.

Prova de que o essencial, Cristo, se perdeu é o fato de ser muito comum alguém afirmar que prefere essa ou aquela Missa por que "a banda é boa" ou o "padre é mais animado". Será que é isso que deve nos atrair na liturgia?

Cabe registrar aqui mais algumas das sempre sábias palavras do então Cardeal Ratzinger:

"O silêncio [na liturgia] deve ser um silêncio pleno, mais do que apenas a ausência de palavra e de ação. O que nós esperamos da liturgia é precisamente que ela nos dê tal silêncio positivo - o silêncio que não é apenas uma pausa, cheia de pensamentos e desejos, mas sim o momento de contemplação, que nos ofereça paz interior, que nos deixe respirar e que descubra o essencial que se encontra oculto. Por isso mesmo é impossível 'fazer' simplesmente silêncio, prescrevê-lo como uma outra ação. Não é por acaso que hoje se procuram tantos exercícios de meditação: é o surgimento de uma necessidade humana que não encontra satisfação na forma atual da liturgia" (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 154, ed. Paulinas).

Por fim, mais do mesmo para fechar:

"Cada vez menos é Deus que se encontra em destaque, cada vez mais importância ganha tudo o que as pessoas aqui reunidas fazem e que em nada se querem submeter a um 'esquema prescrito'." (Introdução ao espírito da liturgia, Joseph Ratzinger, pg. 59, ed. Paulinas).

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Liturgia e Vida

O tempo anda um pouco curto, por isso essas duas semanas sem postar nada aqui no blog. Também gostaria de lembrar que esse blog não trata exclusivamente de liturgia, mas esse tema tem predominado pela publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum.

Por falar nesse documento, a Agência Fides, da Congregação para Evangelização dos Povos, publica um interessante dossiê escrito pelos padres Nicola Bux e Salvatore Vitiello. O estudo demonstra que, de fato, a celebração da Missa de São Pio V nunca foi abolida.

Uma versão em português pode ser lida no próprio site da Agência Fides.

Aproveito também para recomendar novamente a leitura de um artigo escrito pelos mesmos padres autores desse dossiê, o artigo pode ser lido aqui.



Semana passada em um discurso na inauguração da 16ª Semana Nacional de Liturgia, o Cardeal Cipriani afirmou que o Papa Bento XVI tem uma firme convicção de que a liturgia "deve recuperar a beleza de sua expressão".

De fato, em muitos lugares atualmente a Liturgia Católica é celebrada de forma pobre e indigna. E quando digo "pobre", obviamente que não me refiro à riqueza material de paramentos e vasos sagrados; um sacerdote não precisa utilizar paramentos feitos com fios de ouro para estar belo e digno de celebrar os Santos Mistérios. Realmente a beleza da Santa Missa precisa ser recuperada, pois foi covardemente roubada por padres modernistas que não tratam dignamente o Corpo de Cristo!


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Como eu disse acima, esse blog não é exclusivamente sobre liturgia.

Nesse sentido, gostaria de registrar aqui o caso de Guadalupe Lovera, uma menina que foi salva de ser abortada em uma clínica nos Estados Unidos. Ela, hoje com 12 anos, escreveu uma carta e gravou um vídeo externando sua gratidão aos padres da Priests for Life (Padres para a Vida). Essa associação luta contra o aborto nos Estados Unidos e conseguiu, já na clínica, a convencer a mãe de Guadalupe a não abortar!

A notícia completa, a carta e o vídeo podem ser vistos no site da Agência de notícias ACIdigital.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Latim - parte II

Continuando a falar sobre o uso do Latim.

No post anterior comentei sobre um bom motivo para aprendermos algumas orações em Latim: é a língua de nossa Mãe! Também listei uma série de citações do Magistério favorável ao uso da língua latina na Missa. Em sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, o Papa Bento XVI incentiva que também sejam aprendidas e eventualmente "recitadas em latim as orações mais conhecidas da tradição da Igreja" (nº 62).

Nessa segunda parte cito algumas vantagens ao se usar o Latim. Tais vantagens foram retiradas de um folheto escrito por pe. José Edilson, da Adm. Apostólica São João M. Vianney, e distribuído há alguns anos na Capela Santa Luzia (onde, aliás, diariamente se celebra a Missa segundo o Rito de São Pio V por padres da citada Adm. Apostólica e devidamente autorizadas pelo então Arcebispo de São Paulo Dom Claudio Hummes).

As partes em vermelho são as originais do texto do pe. José Edilson.

É uma língua estável: pelo fato de ser uma língua morta, não está sujeita às evoluções próprias das línguas faladas pelo povo. É excelentíssima, por isso, para mostrar a sublimidade do Santo Sacrifício e, principalmente, para conservar a Fé, que acha na Liturgia sua expressão externa.

Aqui podemos utilizar como exemplo a resposta do povo à saudação final do sacerdote na Missa: 'Graças a Deus!'

No Latim é 'Deo Gratias'. Em português não se distingui se alguém está dando graças à Deus pela Missa que acabou de assistir ou se está desabafando aliviado por finalmente ter terminado a Missa...

'Graças a Deus' assume essas duas possibilidades na língua portuguesa. E aqui, neste caso, não é um problema da tradução, mas culturalmente a citada expressão acabou assumindo esses dois significados.

Talvez para evitar esse tipo de ambiguidade outras duas grandes religiões continuam utilizando uma língua separada e considerada sagrada para o culto: o Judaísmo utiliza o hebraico e o Islamismo o árabe. O fato dessas religiões utilizarem uma língua própria para o culto e que muitas vezes é desconhecida de seus membros, não ganha destaque e nem gera polêmica; mas é só o Papa falar em Missa em Latim que vira manchete de jornal e inúmeros colunistas ficam revoltados com o "atraso" da Igreja...


É uma língua fixa: aperfeiçoada com termos próprios formados pela legislação romana, possui grande clareza. No decorrer da História, somente os hereges se opuseram ao uso do latim no culto: no séc. XIII os cátaros e valdenses; mais tarde os hussitas e os protestantes; seguiram-nos os jansenitas e os católicos racionalistas. A razão disto é que pela mudança no modo de orar, eles infiltram as heresias pois a lei da oração é a lei da fé (lex orandi, lex credenci). O latim é, pois, uma barreira contra as heresias.

De fato, o latim tem uma força semântica muito grande, só equiparada pelo grego.

Por isso afirmou Pio XII: “O uso da Língua Latina é um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei, nº 53)

Lex orandi, lex credenci: a maneira como rezamos expressa a fé que temos. É impressionante notar, assim, que a maneira como muitos sacerdotes celebram e zelam pela Missa expressa exatamente a fé que têm...

Sobre isso vejam Sacramentum Caritatis nº 34 à 42; sem esquecer a Ecclesia de Eucharistia nº 52: "O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja".


Língua misteriosa e santa: o latim, mediante seu caráter decoroso, suscita um sentido profundo no mistério eucarístico.

Eis algo que a liturgia em vernáculo e versus populum perdeu completamente: o sentido de mistério.

E o desejo de fazer a liturgia compreensível para o povo mais simples levou muitos sacerdotes e equipes de liturgia a rebaixá-la demais... quando o oposto deveria ter sido priorizado! O povo deve ser instruído, catequizado, 'elevado' para melhor conhecer os Santos Mistérios! E não o contrário, rebaixando e empobrecendo a Missa até poder ser compreendido pelo povo.

"Num mundo secularizado, em vez de procurar elevar os corações para a grandeza do Senhor, procurou-se muito mais, eu acredito, rebaixar os mistérios divinos a um nível banal" (Dom Malcolm Ranjith - entrevista citada no próximo item; não deixem de ler!).


Língua unitiva: na diversidade de povos, o Latim é grande sinal de unidade na Igreja. Todos podem rezar em uma só voz com a Cátedra de Pedro. Embora haja no Oriente línguas de culto, o Latim é a maior expressão da unidade no tempo e no espaço. O abandono do Latim após o Concílio Vaticano II abriu as portas para inúmeras divisões na Igreja no campo litúrgico com todas as suas consequências. Pode-se dizer, sem exagero, que o uso do vernáculo facilitou a transformação da Liturgia, em muitos lugares, numa colcha de retalhos ao sabor da livre inspiração de cada um.

Importante frisar que esse completo abandono do Latim se deu não por culpa direta do Concílio Vaticano II (e nem poderia ser diferente), mas por uma péssima e maldosa interpretação do mesmo, já que o Concílio mesmo não mandou abolir o Latim da liturgia!

Ele trata da Língua latina em dois pontos:

  1. “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 36, § 1)

  2. “Providencie-se que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em Língua Latina as partes do Ordinário que lhes competem.” (Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 54)

Ou seja, no primeiro ponto o Concílio diz que o uso do vernáculo é um "direito particular", ou seja, deve ser usado como medida pastoral especial a ser decidida pelo bispo diocesano. O uso do vernáculo é a excessão que virou a regra! Infelizmente...

O segundo ponto demonstra que realmente não era intenção do Concílio abolir o Latim, pois pede que os fiéis sejam instruídos para saber rezar e cantar as partes que lhe competem nessa língua!

Por isso afirma o Código de Direito Canônico “Faça-se a celebração eucarística em língua latina ou outra língua, contanto que os textos litúrgicos tenham sido legitimamente aprovados.” (Cân. 928)

Sobre esses temas, tenhamos em mente que Nosso Senhor prometeu Sua assistência à Igreja e Ele não deixa de suscitar verdadeiros profetas que amam a Verdade e não temem anunciá-la! (vide, por exemplo, a entrevista de Dom Malcolm Ranjith ou o prefácio escrito pelo então Cardeal Ratzinger para o livro de pe. Uwe Michael Lang, além de um recente artigo do pe. Nicola Brux; exemplos não faltam!).


Mas voltemos aos argumentos de pe. José Edilson para o uso do Latim...


Mantém a pureza da liturgia: o Latim impede que elementos estranhos ao culto possam ser usados na Liturgia. Quando vemos hoje Missas celebradas com danças sensuais, pagãs, ao ritmo de Rock, usando termos chulos, aos som de atabaques e coisas semelhantes, onde o culto a Deus é substituido pelo culto do homem, é porque para muitos já se perdeu o sentido do sagrado, do objeto da Liturgia, que se torna propriedade particular do celebrante ou da comunidade, e não patrimônio da Igreja.

Sobre essa perda do sentido do sagrado, muito se deve às invenções de "animadores" da liturgia que a cada domingo tentam inventar maneiras novas para o povo participar mais "ativamente" da celebração. Nada mais ilusório essa arrogante pretensão de ensinar a Igreja como deve celebrar! O máximo que conseguem é fazer com que o povo perca o sentido de mistério sagrado que envolve a liturgia...

"Desenvolveu-se, de fato, a impressão de que a liturgia seja 'feita', que não seja algo cuja existência nos precede, algo que nos é 'dado', mas algo que depende das nossas decisões. Disto se segue, como consequência, que não se reconheça essa capacidade de decisão só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas que, definitivamente, qualquer 'comunidade' queira se dar uma liturgia própria. Mas, quando a liturgia é algo que qualquer um faz por si mesmo, então desaparece aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida". (Cardeal Joseph Ratzinger, citado por Andrea Tornielli em "Bento XVI - O Guardião da Fé", pag. 208).


É a língua tradicional mais usada na Igreja: o Latim nos mantém em contato com todo o passado da Igreja, com a beleza do canto Gregoriano, com sua arte, cultura e nos leva à visão da Igreja como um todo historicamente ininterrupto.


São esses seis os pontos vantajosos listados por pe. Edilson para que se utilize o Latim.


Pretendo voltar ainda à esse tema.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

O Latim - parte I

O verdadeiro horror que uma parcela considerável dos sacerdotes têm ao uso do Latim sempre me causou surpresa. Se é a língua oficial da Igreja, porque fugir tanto dela?

Falar em Missa em Latim, então, tornou-se praticamente uma blasfêmia!

Essa minha surpresa aumentava na proporção em que eu tomava conhecimento do grande apreço que o Magistério da Igreja teve e tem pelo Latim (vide citações abaixo). E aí a surpresa já começava a dar lugar a uma certa decepção...

Recentemente eu li uma biografia do papa Bento XVI escrita por Andrea Tornielli. Em um capítulo em que o autor analisa o pensamento do Cardeal Ratzinger sobre liturgia, ele cita um trecho em que o cardeal fala sobre o uso do Latim: "A linguagem da Mãe (a Igreja) se torna nossa; aprendemos a falar nela e com ela, de modo que as suas palavras se tornam, pouco a pouco, sobre os nossos lábios, as nossas palavras".

Uma perspectiva nova para a questão do uso do Latim se abriu diante dos meus olhos!

Devo amar e até aprender algumas orações em Latim por um motivo simples: é a língua de minha Mãe! Agrada-a muito que seus filhos saibam rezar em seu idioma, para que as palavras dela se tornem - como disse o Cardeal - "sobre os nossos lábios, as nossas palavras"!

Nesse momento penso, paralelamente, em tantos descendentes de estrangeiros que temos no Brasil. Será que têm pela língua nativa de seus pais ou avós o mesmo desprezo que muitos católicos têm pelo Latim? Como se sentiriam as mães italianas, japonesas, alemãs, que ouvissem de seus filhos palavras de desprezo pelo italiano, japonês, alemão? Nesse sentido, como será que a Igreja, nossa Mãe, se sente ao ver, por exemplo, um filho querido - um conhecidíssimo sacerdote - dizer em uma entrevista que é ignorante do idioma a ponto de que "se me mandarem falar latim, vou fazer: 'Au, au, au!'” ????

Assim, se é excelente que saibamos algumas orações em Latim para rezar com a Igreja, quanto mais não será melhor que a Santa Missa seja também em Latim! Toda a Família Católica reunida rezando e oferecendo à Deus o Sacrifício Perfeito em um mesmo e santo idioma.

Não tenho aqui a intenção de criticar absolutamente o uso do vernáculo, que é legítimo e tem seu valor, mas me entristece esse ódio que se criou ao uso do Latim.

Que bom seria se tivessemos naturalmente em nossas paróquias Missas sendo celebradas em Latim. Digo 'naturalmente' no sentido que isso ocorrese com naturalidade. Porque atualmente ocorre o oposto! Parece uma coisa do outro mundo querer o Latim e até gera uma tremenda polêmica a simples menção de se preferir a Missa em Latim ou, por parte de sacerdotes, de se querer celebrar assim a Missa.

O que está, definitivamente, em oposição ao querer da Igreja! Inclusive o Concílio Vaticano II jamais aboliu o uso do Latim na Missa.


Segue uma coletânea de textos do Magistério tratando do Latim.


“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana (...) só se deve celebrar a Missa em língua corrente [vernácula](...), seja excomungado”
(Concílio de Trento, Cânones sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, cânon 9).

“A Língua Latina é a língua própria da Igreja Romana” (Papa São Pio X, Encíclica Inter Pastoralis Officii).

“O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei, nº 53)

“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido, e onde houver caído quase em abandono, seja absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de novidade escreva contra o uso da Língua Latina nos sagrados ritos da Liturgia.” (Papa João XXIII, Encíclica Veterum Sapientia).

“Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 36, § 1)

“Providencie-se que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em Língua Latina as partes do Ordinário que lhes competem.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 54)

Faça-se a celebração eucarística em língua latina ou outra língua, contanto que os textos litúrgicos tenham sido legitimamente aprovados.” (Código de Direito Canônico, Cân. 928)

Missa se celebre quer em língua latina ou quer noutra língua, contanto que se usem textos litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com as normas do direito. Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.” (Instrução Redemptionis Sacramentum, nº 112)


“O que acabo de afirmar não deve, porém, ofuscar o valor destas grandes liturgias; penso neste momento, em particular, às celebrações que têm lugar durante encontros internacionais, cada vez mais frequentes hoje, e que devem justamente ser valorizadas. A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia com as directrizes do Concílio Vaticano II: exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua latina; sejam igualmente recitadas em latim as orações mais conhecidas da tradição da Igreja e, eventualmente, entoadas algumas partes em canto gregoriano. A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia”
(Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, nº 62).