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sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dom Malcolm Ranjith fala em "reforma da reforma" litúrgica

Em notícia divulgada pela Catholic World News (CWN) o arcebispo do Sri Lanka e secretário da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Dom Malcolm Ranjith, comentou sobre a necessidade de se "reformar a reforma" litúrgica, que em pouco ou nada seguiu as orientações do Concílio Vaticano II.

Não é de hoje que d. Ranjith coloca em público suas opiniões sobre liturgia. Quem quiser pode ler uma antiga, mas interessante, entrevista desse bispo para a revista 30 Dias.

A tradução da notícia da CWN para o português é da Associação Cultural Montfort. Os destaques sublinhados e em negrito são meus.

Uma autoridade chave do Vaticano pediu por decisões “ousadas e corajosas” para corrigir os abusos litúrgicos que surgiram desde as reformas do Vaticano II.

O Arcebispo Malcolm Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino, diz que um entendimento falho dos ensinamentos do Vaticano II e a influência das ideologias seculares são as razões para se concluir que – como disse o então Cardeal Joseph Ratzinger em 1985 – “o verdadeiro tempo do Vaticano II ainda não chegou”. Particularmente no campo da liturgia, o Arcebispo Ranjith diz, “A reforma tem que continuar”.

O Arcebispo Ranjith, que foi pessoalmente chamado para o Vaticano pelo Papa Bento XVI para ajudá-lo como um aliado na busca pela restauração do senso de reverência na liturgia, fez este comentário no Prefácio de um novo livro baseado nos diários e anotações do Cardeal Fernando Antonelli, que foi uma figura chave no movimento de reforma litúrgica, tanto antes quanto depois do Vaticano II.

Sobre os escritos do Cardeal Antonelli, o Arcebispo Ranjith diz, que ajudam o leitor “a entender o complexo trabalho interno da reforma da liturgia antes da imediata aplicação do Concílio.” Essa autoridade do Vaticano conclui que a implementação das reformas sugeridas pelo Concílio muitas vezes passou longe das verdadeiras intenções dos padres do Concílio. Como resultado, o Arcebispo Ranjith conclui, a liturgia hoje não é uma verdadeira realização da visão proposta no documento litúrgico essencial do Vaticano II, a Sacrosanctum Concilium.

Especificamente o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve: “Algumas práticas que o Sacrosanto Concílio nunca sequer tinha especulado foram permitidas dentro da liturgia, como a Missa voltada para o povo, a Sagrada Comunhão na mão, incluindo a desistência do Latim e do Canto Gregoriano a favor do vernáculo e de canções e hinos sem espaço para Deus, e a ampliação além de qualquer limite razoável da faculdade de concelebrar a Santa Missa. Houve também um erro grosseiro de interpretação do princípio da “participação ativa”.

O prelado do Sri Lanka argumenta que para executar a “reforma da reforma” é essencial reconhecer como a visão litúrgica do Vaticano II se tornou distorcida. Ele exalta o livro sobre o Cardeal Antonelli por permitir o leitor ganhar um melhor entendimento de “quais nomes ou atitudes causaram a presente situação”. Isto, diz o arcebispo, é um exame “que, em nome da verdade, não podemos abandonar”.

Enquanto reconhece “o humor turbulento dos anos que imediatamente seguiram o Concílio”, o Arcebispo Ranjith lembra os leitores que ao chamar todos os bispos do mundo para um concílio ecumênico, o Beato João XXIII pretendia “uma fortificação da fé”. O Concílio aos olhos do Papa João “certamente não foi um chamado para fazer as pazes com o espírito dos tempos”.

Entretanto, continua ele, o Concílio aconteceu num tempo de grande comoção intelectual mundial, e especialmente na sua conseqüência, muitos seriam os interpretes que viram o evento como uma ruptura com a tradição anterior da Igreja. Como o Arcebispo Ranjith colocou:

Conceitos básicos e temas como Sacrifício e Redenção, Missão, Anúncio e Conversão, a Adoração como um elemento integral da Comunhão, e a necessidade da Igreja para a salvação – todos foram postos de lado, enquanto Diálogo, Inculturação, Ecumenismo, Eucaristia como Ceia, Evangelização como Testemunha, etc., se tornaram mais importantes. Os valores absolutos foram desprezados. Mesmo no trabalho do Consilium, o Vaticano se atribui a função de implementar as mudanças litúrgicas, estas influencias foram claramente sentidas, o arcebispo nota: “Um senso exagerado do antiquado, antropologismo, a confusão de papéis entre pessoas ordenadas e não ordenadas, uma permissão sem limites de espaço para a experimentação – e de fato, a tendência para desprezar alguns aspectos do desenvolvimento da Liturgia no segundo milênio – foram incrivelmente visíveis entre certas escolas litúrgicas".


Hoje, o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve, a Igreja pode olhar para trás e reconhecer as influências que distorceram a intenção original do Concílio. Este reconhecimento, ele diz, deveria “ajudar-nos a sermos corajosos para melhorar ou mudar aquilo que foi erroneamente introduzido e que parece incompatível com a verdadeira dignidade da Liturgia. Uma “reforma da reforma” por demais necessária, ele argumenta, deveria ser inspirada “não pelo mero desejo de corrigir os erros passados, mas muito mais pela necessidade de ser verdadeira para o que a Liturgia de fato significa para nós e o que o Concílio mesmo definiu para ser.”

O Prefácio de 10 páginas do Arcebispo Malcolm Ranjith aparece na edição na língua inglesa do livro intitulado “O Verdadeiro Desenvolvimento da Liturgia”escrito por Monsenhor Nicola Giampietro, que faz parte do quadro de pessoal da Congregação para o Culto Divino. Ele estará disponível em Setembro, nos Livros Católicos Romanos.



quarta-feira, 18 de junho de 2008

De joelhos!

Diante de 70 mil pessoas, o papa Bento XVI fez história domingo durante a celebração de uma missa em Brindisi (...) No momento da comunhão, o pontífice restaurou o costume de entregar a hóstia consagrada aos fiéis ajoelhados.

Quando os católicos comemoraram e os modernistas estrebucharam pela eleição de Joseph Ratzinger como sucessor de João Paulo II, sabiam bem o que estavam fazendo!

Depois de liberar a celebração da Missa de São Pio V, o papa Bento XVI trabalha agora na restauração da comunhão de joelhos. Leia a notícia completa!

Apenas ressaltando que, ao contrário do que afirma a notícia, o papa não está exatamente restaurando a comunhão de joelhos porque ela nunca foi abolida. Ainda é a forma ordinária, infelizmente o que era pra ser uma excessão - a comunhão de pé e na mão - virou regra (como outras coisas no pós-concílio...).

Não encontrei a homilia do papa onde ele teria afirmado que vê urgência no retorno da comunhão de joelhoes e na boca. Mas se ele (ainda) não afirmou isso realmente, já tem dado o exemplo na prática! Visto que na Solenidade de Corpus Christi Bento XVI fez o mesmo: pra quem comungou com ele, de joelhos e diretamente na boca! Fotos abaixo.

E podem anotar, o próximo passo é restaurar a posição do altar; incentivando que a Missa seja celebrada "versus Deum" novamente!

Tudo isso faz parte de um dos compromissos principais do pontificado de Bento XVI, interpretar e aplicar corretamente o Concílio Vaticano II (o que inclui uma reforma litúrgica realmente de acordo com o que pediu o Concílio).


Na Missa de Corpus Christi - 22/05/2008:







Na Missa de sua visita pastoral a Brindisi (Itállia) - 14/06/2008:






Na Missa de sua visita pastoral a Santa Maria di Leuca (Itállia) - 15/06/2008:




sexta-feira, 20 de julho de 2007

Versus Deum per Iesum Christum


Versus Deum per Iesum Christum


Publico abaixo artigo de Rafael Vitola Brodbeck tratando da posição do sacerdote durante a celebração da Santa Missa.

Interessante a referência que o articulista faz ao "clericalismo" existente na Missa celebrada versus populum. Essa referência também foi feita pelo então Cardeal Jospeh Ratzinger em seu livro "Introdução ao Espírito da Liturgia", afirmando que o destaque que se dá ao sacerdote quando celebra voltado para o povo o torna o ponto principal de toda a Missa: "[a mudança na posição do sacerdote e do altar] levou a uma clericalização jamais vista. O sacerdote - ou melhor, o agora chamado presidente da celebração - torna-se o ponto de referência do todo. Tudo depende dele. É necessário vê-lo, participar na sua ação, responder-lhe; tudo assenta na sua criatividade. (...) Cada vez menos é Deus que se encontra em destaque, cada vez mais importância ganha tudo o que as pessoas aqui reunidas fazem e que em nada se querem submeter a um 'esquema prescrito'. O sacerdote que se volta para a comunidade forma, juntamente com ela, um círculo fechado em si. A sua forma deixou de ser aberta para cima e para frente; ela encerra-se em si própria." (Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia - Ed. Paulinas, pag 59 - destaque meu)

Particularmente sou um entusiasta da Missa celebrada versus Deum, pois fica muito mais forte o sinal de que ocorre algo sagrado, um sacrifício. Como explica Rafael em seu artigo, o sacerdote volta-se para Deus para representar o povo nas orações e no oferecimento do sacrifício do Corpo e Sangue de Cristo; e volta-se para o povo quando proclama o Evagelho e faz a homilia, representando Deus que ensina seus filhos.


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Missa de frente para Deus - versus Deum - também no rito novo?

Por Dr. Rafael Vitola Brodbeck


Muitos pensam que o Missal de 1970, o Novus Ordo, instituindo a nova forma de celebrar a Missa romana, modificou a direção a qual deve estar voltado o sacerdote celebrante. Ledo engano, a posição do ofertante foi mantida a mesma. É o que informam recentes documentos da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, bem como o próprio Papa Bento XVI, à época Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em entrevista por ocasião do lançamento de seu livro "Introdução ao Espírito da Liturgia". Também das próprias rubricas do Missal Romano de Paulo VI encontramos as informações que confirmam tal ensino: o sacerdote deve, segundo tais textos, durante a Liturgia Eucarística, “voltar-se para o povo” durante alguns atos; isto significa que, se deve voltar-se ao povo, é porque antes estava voltado ad Orientem. “Estes avisos que em certos momentos o sacerdote esteja ‘voltado para o povo’ seriam supérfluos, se o sacerdote durante toda a celebração ficasse atrás do altar e frente ao povo.” (RUDROFF, Pe. Francisco. Santa Missa, Mistério de nossa Fé. 1996, Serviço de Animação Eucarística Mariana, Anápolis, com apresentação de Dom Manoel Pestana Filho, Bispo Diocesano de Anápolis, p. 110, nota 37; cf. ELLIOTT, Mons. Peter. Cerimonies of the Modern Roman Rite, 1995, Ignatius Press, San Francisco, p. 23)

Isso, aliás, não é nenhuma surpresa, uma vez que nunca a posição ad Orientem foi expressamente proibida por algum decreto, nem esse foi o desejo dos Padres do Concílio Vaticano II, autor da reforma litúrgica. Outrossim, essa é a forma histórica de oferecimento da Missa, observada inclusive pelos ritos orientais.

Mesmo assim, ainda que a norma seja a manutenção da direção do sacerdote ad Orientem, também conhecida como versus Deum foi permitida pela reforma a posição versus populum, i.e., voltado para o povo, atrás do altar, forma, aliás, que se disseminou mundialmente, tornando-se bastante popular, por força da Instrução Geral do Missal Romano.

Uma nota publicada, em 1993, pela Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos , em seu boletim Notitiae, reafirmou o valor de ambas as opções, celebração versus populum ou versus Deum, de modo que quaisquer dúvidas devem ser dissipadas.

O motivo da celebração versus Deum, ad Orientem, é principalmente o reforço do caráter do sacerdote como sendo o próprio Cristo, seu sacerdócio unido, pela Ordem, ao de Nosso Senhor e Salvador. Assim, “de costas para o povo”, o padre está, na verdade, à sua frente, como líder, como aquele que, em nome da humanidade, mostra-se diante de Deus, e, agindo Cristo por Ele, oferece um sacrifício. Virando-se para os fiéis nos momentos oportunos, é o representante de Deus que nos dá a bênção. E, desse modo, por ser Cristo Deus e Homem ao mesmo tempo, o padre, se é Seu ministro, age ora representando a humanidade ora a divindade, e a Única Pessoa de Jesus, em Suas duas naturezas, mediante o sacerdócio dos que Lhe são especialmente consagrados pelo sacramento da Ordem, oferece Seu sacrifício por nossos pecados.

“(...) a imolação incruenta, por meio da qual, depois de pronunciadas as palavras da Consagração, Jesus Cristo torna-se presente sobre o altar no estado de Vítima, é levada a cabo somente pelo sacerdote, enquanto representante da Pessoa de Cristo, e não enquanto representante da pessoa dos fiéis.” (Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei)

Além do quê, na Missa, mesmo versus populum, sempre estamos “de costas” uns para os outros. Que mal há no padre também ficar?

Mais ainda, ele não está simplesmente dando as costas ao povo, mas virando-se, junto com ele, para a mesma direção. O sacerdote, na Missa versus Deum, posiciona-se exatamente com o restante dos fiéis: todos miram o mesmo alvo, todos olham para o mesmo lugar, todos estão alinhados, como um verdadeiro povo, à frente do qual está o sacerdote, seu líder. Interessante é observar que os setores liberais e progressistas, defendendo a exclusividade da Missa versus populum, acabam criando um clericalismo que eles mesmos criticam, opondo sacerdote e fiéis uns aos outros.

Além disso, por óbvio centra a atenção do povo no sacerdote e a atenção do sacerdote no povo, ao invés de ambos centrarem-se em Deus. O culto versus populum acaba, na prática, favorecendo o antropocentrismo. Evidentemente, nem todos os que celebram versus populum assim o fazem, pois é perfeitamente possível a Missa externamente voltada para o povo e, ao mesmo tempo, espiritualmente centrada em Deus. “Quando o sacerdote celebra versus populum, sua orientação espiritual deveria ser sempre versus Deum per Iesum Christum [para Deus, por meio de Jesus Cristo].” (Cardeal Joseph Ratzinger, A introdução do decano do Sacro Colégio ao livro de Uwe Michael Lang, in 30 Dias, disponível em http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=3510) Entretanto, ainda que a versus populum não seja, em si, antropocêntrica ou negadora da absoluta centralidade de Cristo na Eucaristia, não há como negar que a celebração versus Deum favorece, pela posição do sacerdote, a centralização da Missa em Deus.

Sem dúvida que em qualquer posição, o padre olha para Deus. Mas a posição versus Deum é mais simbólica nesse sentido. Até porque, por tal argumento, deveríamos, então, em vez de olhar para o altar, olharmos todos uns para os outros. O padre não fica "de costas, propriamente, mas "olhando na mesma direção que nós".

Posição esta que é tradicional não só no rito romano (seja o tradicional, seja o novo - apesar de, nesta última forma, não ser tão comum), como nos ritos orientais (e mesmo nos demais ritos latinos).

“Sobre a orientação do altar para o povo, não há sequer uma palavra no texto conciliar. Ela é mencionada em instruções pós-conciliares. A mais importante delas é a Institutio generalis Missalis Romani, a Introdução Geral ao novo Missal Romano, de 1969, onde, no número 262, se lê: “O altar maior deve ser construído separado da parede, de modo a que se possa facilmente andar ao seu redor e celebrar, nele, olhando na direção do povo [versus populum]”. A introdução à nova edição do Missal Romano, de 2002, retomou esse texto à letra, mas, no final, acrescentou o seguinte: “Isso é desejável sempre que possível”. Esse acréscimo foi lido por muitos como um enrijecimento do texto de 1969, no sentido de que agora haveria uma obrigação geral de construir - “sempre que possível” - os altares voltados para o povo. Essa interpretação, porém, já havia sido repelida pela Congregação para o Culto Divino, que tem competência sobre a questão, em 25 de setembro de 2000, quando explicou que a palavra “expedit” [é desejável] não exprime uma obrigação (...).” (Ratzinger, op. cit.)

“Por último, penso que se o sacerdote rezasse, em algumas ocasiões, a Liturgia Eucarística versus Deum – algo perfeitamente possível segundo as normas atuais –, isso também ajudaria a perceber qual é a orientação espiritual da Liturgia – em direção a Deus, o que não significa nenhum desprezo do Povo. Aliás, alguém diz para a pessoa do banco da frente: ‘você está de costas para mim’?; ou que os noivos, no sacramento do Matrimônio, estão de ‘costas para o povo’?” (BELLO, Joathas, Algumas reflexões sobre a liturgia, disponível em http://ictys.blogspot.com/2005/10/algumas-reflexes-sobre-liturgia.html)

Em resumo, no Novus Ordo Missae, na forma de rito romano promulgada por Paulo VI, em uso na Igreja Ocidental desde então, pode o sacerdote, sem problema algum nem oposição dos superiores ou dos Ordinários, celebrar "de costas aos fiéis", na posição versus Deum, tradicional, própria, e muito mais rica dos pontos-de-vista teológico, histórico e mesmo espiritual. Longe de afastar os fiéis, essa prática só os faz crescer ainda mais na compreensão do mistério da Cruz, tornado presente em cada Santa Missa. Tomara essa posição do sacerdote seja revalorizada, para que o antropocentrismo dê lugar a quem de direito, ainda mais na Missa, Cristo Rei, que no altar, invisível e incruentamente, se imola ao Pai por nós. Mais elevados espiritualmente, melhores cristãos sairão os fiéis de uma Missa em que se observe até mesmo esse aparente detalhe da posição do celebrante: embora, substancialmente, a Missa seja a mesma, tal elemento acidental muito favorece a que tenhamos a correta apreensão da idéia de sacrifício, além de acrescentar à sacralidade do rito e à piedade de todos os que dela tomam parte, transmitindo a riqueza multissecular da Santa Igreja Católica.