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quinta-feira, 7 de maio de 2009

No descompasso da Igreja

Em dezembro de 2007 Dom Vilson Dias de Oliveira, bispo de Limeira, concedeu uma entrevista ao "Jornal de Limeira". Tomei conhecimento agora através do blog Fratres in Unum.

Embora já tenha mais de ano essa entrevista, gostaria de tecer alguns comentários aqui sobre os dizeres de Dom Vilson.

Nessa entrevista, entre outras coisas, ele foi questionado sobre a liberação da Missa Tridentina, a ordenação de mulheres e a Teologia da Libertação. Nos três casos o senhor bispo ou mentiu, ou omitiu, ou está completamente desinformado sobre o que acontece na Santa Igreja.

Sobre a Missa, afirma Dom Vilson: "O papa tentou responder para comunidades mais tradicionais. Na verdade, existem grupos no mundo hoje que têm essa linha tradicionalista, de poder rezar em latim. Acho que o papa tentou não desmerecer esse pessoal e deixou em aberto. Agora, isso não quer dizer que na Diocese de Limeira vai ter missa em latim. Diria que depois do Concílio (2º Concílio do Vaticano, em 1963), quando se celebraram as missas em português, as pessoas passaram a participar mais. Felizmente não temos esses grupos ultraconservadores na diocese. Eu não faria polêmica em torno dessa história. Rezamos na nossa língua e vamos continuar assim. Vamos ter missa em português e ponto final. Desde o Vaticano 2º houve muitos avanços".

Primeiro - foi um capricho dos reformadores liturgicos, e não do Concílio, a total liberação do vernáculo na liturgia, o que era para ser excessão virou regra. O Concílio na verdade mandou que se mantivesse o latim na Missa.

Segundo - sobre as intenções do Santo Padre ao publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, afirma o Cardeal Cañizares (prefeito da Congregação para o Culto Divino e antigo colaborador do Papa, a ponto de ser conhecido como "o pequeno Ratzinger") ao prefaciar o livro A Reforma de Bento XVI: "a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, mas também, e de maneira especial, abrir a riqueza litúrgica da Igreja A TODOS OS FIÉIS, tornando possível assim a descoberta dos tesouros do patrimônio litúrgico da Igreja a quem ainda o ignora. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.

Será que é necessário acrescentar algo às palavras do Cardeal?

Em outro momento, e este é o mais grave, Dom Vilson se sai com essa sobre o sacerdócio feminino: "Agora, você vai dizer: "amanhã pode acontecer?". Pode ser, você tem que respeitar a caminhada da Igreja, o tempo. Por enquanto, a Igreja diz que não, por enquanto não posso levantar uma bandeira e dizer "faça isso". Eles olham a experiência do passado para olhar essa questão. Diria o seguinte: na América Latina, a mulher hoje participa muito mais, tem maior presença da Igreja, é mais engajada, mais participante. Ela não é só maior em número, ela tem maior participação nos ministérios da igreja".

Será que ele desconhece a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de João Paulo II?

Nela o Papa de venerável memória afirma: "Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja".

Por fim, Dom Vilson ainda faz um afago nessa praga dos infernos chamada Teologia da Libertação, que já foi devidamente condenana pela Santa Sé. Afirma ele que trata-se de uma teolgia como qualquer outra e quem tem seus méritos. E ainda contraria o óbvio ululante, contraria os fatos históricos ao afirmar que a Teologia da Libertação não ajudou a fundar o PT! Até os inglesas da "The Economist" sabem disso!

É no mínimo curiosos a maneira como Dom Vilson se comporta nesses três casos. Aquilo que o Papa libera, o bispo condena de forma taxativa: "Vamos ter missa em português e ponto final". Aquilo que os Papa condenam, o bispo leva em consideração: "a ordenação de mulheres é possível e a Teologia da Libertação tem seus méritos".

Dom Vilson parece seguir à risca o modo de agir da CNBB (conforme já escrevi aqui), que condena o que não precisa e é omissa ou ambígua com o que deveria condenar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Santa Missa, nosso maior tesouro

É bem sabido para qualquer católico que se preze que a Santa Missa é nosso maior tesouro. Tesouro este que nos dias de hoje, infelizmente, não está ao nosso alcance com facilidade, na igreja mais próxima. Muitas vezes precisamos ir em busca desse tão grande tesouro...

No último sábado à noite, dia 18/02/09, eu, minha esposa e meu filho viajamos até a região de Campinas, mais precisamente a cidade de Sumaré, para visitar a avó de minha esposa. O plano era, no domingo, assistir a Santa Missa pela manhã, almoçar e no final da tarde voltarmos para São Paulo. Assim o fizemos...

Como decidimos já no sábado à noite a fazer essa visita, não tive tempo de confirmar o endereço e os horários das missas na Capela São Tomás de Aquino (fotos e informações aqui e aqui), que vi receber elogios no site Salvem a Liturgia, só sabia que ficava na escola de cadetes em Campinas. Fiquei um tanto decepcionado por ir tão próximo e não conhecer a capela, mas conformei-me em deixar para uma próxima oportunidade.

No domingo pela manhã fomos até a Paróquia São Miguel Arcanjo. Logo ao entrar, preocupou-me o fato de no lugar da imagem de Cristo crucificado, existir uma imagem de Cristo ressuscitado. Pensei comigo: bem, isso tanto pode significar um duvidoso gosto estético do pároco, quanto pode significar uma negação do sacrifício de Cristo por parte do mesmo (se duvida que isso seja possível, clique aqui para ler uma aterradora notícia). Após os acontecimentos, temo que ele se enquadre na segunda hipótese...

A banda ensaiava em alto e bom som...

Alguns minutos antes da Missa surge o sacerdote, que depois descobri o nome: Conêgo José Veríssimo Cibinel. Enquanto atravessava o presbitério, ajeitava-se dentro de sua alva que de tão amassada parecia ter sido retirada de dentro de uma apertada garrafa... E eu, de onde estava, podia ver que dentro da sacristia um grupo de mais ou menos sete pessoas vestiam capas com o mesmo recorte da dalmática utilizada pelos diáconos, eram leitores, comentaristas, MEC's, etc.

Minha esposa me faz uma tentadora proposta: "Vamos embora, procuramos outra igreja e assistimos a Missa à tarde". Eu, teimoso, insisto em ficar...

Começa a procissão de entrada, o Côn. José Veríssimo entra alegremente batendo palmas e acenando para as crianças, nem de longe parecia que iria "subir ao altar de Deus", como possivelmente rezou em sua primeira Missa.

Ao tomar o microfone, tive certeza que deveria ter aceitado a proposta de minha esposa. Se expressava pessimamente para um sacerdote. Então ele anunciou e um grupo de crianças chamados de "Pequeninos do Senhor" entrou em procissão.

O referido sacerdote se expressa da seguinte maneira em relação àquele grupo de crianças: "Eles vão celebrar a Missa ao modo deles lá no salão, pois se ficarem aqui não vão entender nada, não vão aproveitar nada, então vão lá celebrar a Missa deles. Mas só vão as meninas bonitas, as feias podem ficar aqui na igreja; e só vão os meninos espertos, os vagabundos também vão ficar aqui .... hahahahahaha".

O absurdo começa com a afirmação de que crianças vão "celebrar a missa ao modo delas", depois pensei o quão triste é um sacerdote por pra fora da igreja as crianças, elas que desde cedo deveriam se acostumar a estar na casa de Deus e a assistir a Santa Missa. Por outro lado, comecei a pensar que não estar ali na igreja seria até benéfico para elas, as pouparia de verem tanta bagunça e desrespeito para com a Liturgia, evitando que aprendam errado o que é a Missa.

Iniciada a celebração, o padre pula arbitrariamente o Ato Penitencial, indo direto para o canto do Glória (que seguindo o triste e errado costume atual no Brasil, teve sua letra alterada).

Após as leituras, Côn. José Veríssimo anuncia "Evangelho de Jesus Cristo segundo João" e vai para o centro do presbitério, então começa a narrar o Evangelho com suas próprias palavras!!! Quando chega no momento em que Nosso Senhor no Evangelho diz aos apóstolos "A paz esteja convosco!", o padre faz um sinal para a banda e essa passa a cantar "A paz esteja contigo, a paz esteja comigo, a paz esteja com ele, com ela e com todos os irmãos...".

Foi a gota d'agua!

Temendo o que poderia acontecer dali em diante, mais especificamente na consagração, olhei para minha esposa e disse: "Vamos?", ela concordou e nos retiramos. Foi a primeira vez que me retirei de uma igreja no meio da Santa Missa por causa de abusos, embora já tenha suportado muita coisa, mas nunca tinha visto tamanho indiferença e desrespeito com a Sagrada Liturgia.

Voltamos para a casa da avó de minha esposa. Comentei com um dos tios dela sobre a Capela São Tomás de Aquino na Escola de Cadetes. Ele disse que conhecia a Escola e que não ficava longe de onde estávamos, e ainda se ofereceu para ir comigo de moto até lá naquele momento, assim eu poderia conhecer o caminho e o horário da missa da tarde. Providência de Deus!

Então eu, que definitivamente não morro de amores por motos, me vi na garupa de uma, em plena Rodovia Anhanguera, em busca do Sacrifício de Cristo dignamente celebrado.

Caminho aprendido, horário confirmado, lá fomos nós à noite na Capela São Tomás de Aquino.

As fotos que indiquei acima testemunham a beleza da capela e a dignidade com que o pe. João Batista celebra o Santo Sacrifício da Missa. Música tranquila e de acordo com a liturgia, comunhão de joelhos e na boca, a consagração e a doxologia em latim, com direito a "Ite Missa est, Aleluia / Deo gratias, Aleluia" cantado no final.

Uma celebração simples, mas feita com muito zelo e dignidade. Depois do terrorismo liturgico que presenciei pela manhã, me vi no céu!

Enfim, por graça e providência de Deus, meu domingo foi salvo.

Rezemos pelo Conêgo José Veríssimo Cibinel para que possa ver o mal que está fazendo a seus paroquianos e passe então a celebrar com zelo e dignidade, nunca se esquecendo que deve celebrar cada Missa como se fosse a primeria, como se fosse a última, como se fosse a única!

Rezemos também pelo pe. João Batista, para que se mantenha firme na fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Santa Igreja.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dom Malcolm Ranjith fala em "reforma da reforma" litúrgica

Em notícia divulgada pela Catholic World News (CWN) o arcebispo do Sri Lanka e secretário da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, Dom Malcolm Ranjith, comentou sobre a necessidade de se "reformar a reforma" litúrgica, que em pouco ou nada seguiu as orientações do Concílio Vaticano II.

Não é de hoje que d. Ranjith coloca em público suas opiniões sobre liturgia. Quem quiser pode ler uma antiga, mas interessante, entrevista desse bispo para a revista 30 Dias.

A tradução da notícia da CWN para o português é da Associação Cultural Montfort. Os destaques sublinhados e em negrito são meus.

Uma autoridade chave do Vaticano pediu por decisões “ousadas e corajosas” para corrigir os abusos litúrgicos que surgiram desde as reformas do Vaticano II.

O Arcebispo Malcolm Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino, diz que um entendimento falho dos ensinamentos do Vaticano II e a influência das ideologias seculares são as razões para se concluir que – como disse o então Cardeal Joseph Ratzinger em 1985 – “o verdadeiro tempo do Vaticano II ainda não chegou”. Particularmente no campo da liturgia, o Arcebispo Ranjith diz, “A reforma tem que continuar”.

O Arcebispo Ranjith, que foi pessoalmente chamado para o Vaticano pelo Papa Bento XVI para ajudá-lo como um aliado na busca pela restauração do senso de reverência na liturgia, fez este comentário no Prefácio de um novo livro baseado nos diários e anotações do Cardeal Fernando Antonelli, que foi uma figura chave no movimento de reforma litúrgica, tanto antes quanto depois do Vaticano II.

Sobre os escritos do Cardeal Antonelli, o Arcebispo Ranjith diz, que ajudam o leitor “a entender o complexo trabalho interno da reforma da liturgia antes da imediata aplicação do Concílio.” Essa autoridade do Vaticano conclui que a implementação das reformas sugeridas pelo Concílio muitas vezes passou longe das verdadeiras intenções dos padres do Concílio. Como resultado, o Arcebispo Ranjith conclui, a liturgia hoje não é uma verdadeira realização da visão proposta no documento litúrgico essencial do Vaticano II, a Sacrosanctum Concilium.

Especificamente o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve: “Algumas práticas que o Sacrosanto Concílio nunca sequer tinha especulado foram permitidas dentro da liturgia, como a Missa voltada para o povo, a Sagrada Comunhão na mão, incluindo a desistência do Latim e do Canto Gregoriano a favor do vernáculo e de canções e hinos sem espaço para Deus, e a ampliação além de qualquer limite razoável da faculdade de concelebrar a Santa Missa. Houve também um erro grosseiro de interpretação do princípio da “participação ativa”.

O prelado do Sri Lanka argumenta que para executar a “reforma da reforma” é essencial reconhecer como a visão litúrgica do Vaticano II se tornou distorcida. Ele exalta o livro sobre o Cardeal Antonelli por permitir o leitor ganhar um melhor entendimento de “quais nomes ou atitudes causaram a presente situação”. Isto, diz o arcebispo, é um exame “que, em nome da verdade, não podemos abandonar”.

Enquanto reconhece “o humor turbulento dos anos que imediatamente seguiram o Concílio”, o Arcebispo Ranjith lembra os leitores que ao chamar todos os bispos do mundo para um concílio ecumênico, o Beato João XXIII pretendia “uma fortificação da fé”. O Concílio aos olhos do Papa João “certamente não foi um chamado para fazer as pazes com o espírito dos tempos”.

Entretanto, continua ele, o Concílio aconteceu num tempo de grande comoção intelectual mundial, e especialmente na sua conseqüência, muitos seriam os interpretes que viram o evento como uma ruptura com a tradição anterior da Igreja. Como o Arcebispo Ranjith colocou:

Conceitos básicos e temas como Sacrifício e Redenção, Missão, Anúncio e Conversão, a Adoração como um elemento integral da Comunhão, e a necessidade da Igreja para a salvação – todos foram postos de lado, enquanto Diálogo, Inculturação, Ecumenismo, Eucaristia como Ceia, Evangelização como Testemunha, etc., se tornaram mais importantes. Os valores absolutos foram desprezados. Mesmo no trabalho do Consilium, o Vaticano se atribui a função de implementar as mudanças litúrgicas, estas influencias foram claramente sentidas, o arcebispo nota: “Um senso exagerado do antiquado, antropologismo, a confusão de papéis entre pessoas ordenadas e não ordenadas, uma permissão sem limites de espaço para a experimentação – e de fato, a tendência para desprezar alguns aspectos do desenvolvimento da Liturgia no segundo milênio – foram incrivelmente visíveis entre certas escolas litúrgicas".


Hoje, o Arcebispo Malcolm Ranjith escreve, a Igreja pode olhar para trás e reconhecer as influências que distorceram a intenção original do Concílio. Este reconhecimento, ele diz, deveria “ajudar-nos a sermos corajosos para melhorar ou mudar aquilo que foi erroneamente introduzido e que parece incompatível com a verdadeira dignidade da Liturgia. Uma “reforma da reforma” por demais necessária, ele argumenta, deveria ser inspirada “não pelo mero desejo de corrigir os erros passados, mas muito mais pela necessidade de ser verdadeira para o que a Liturgia de fato significa para nós e o que o Concílio mesmo definiu para ser.”

O Prefácio de 10 páginas do Arcebispo Malcolm Ranjith aparece na edição na língua inglesa do livro intitulado “O Verdadeiro Desenvolvimento da Liturgia”escrito por Monsenhor Nicola Giampietro, que faz parte do quadro de pessoal da Congregação para o Culto Divino. Ele estará disponível em Setembro, nos Livros Católicos Romanos.



terça-feira, 26 de junho de 2007

O Latim - parte II

Continuando a falar sobre o uso do Latim.

No post anterior comentei sobre um bom motivo para aprendermos algumas orações em Latim: é a língua de nossa Mãe! Também listei uma série de citações do Magistério favorável ao uso da língua latina na Missa. Em sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, o Papa Bento XVI incentiva que também sejam aprendidas e eventualmente "recitadas em latim as orações mais conhecidas da tradição da Igreja" (nº 62).

Nessa segunda parte cito algumas vantagens ao se usar o Latim. Tais vantagens foram retiradas de um folheto escrito por pe. José Edilson, da Adm. Apostólica São João M. Vianney, e distribuído há alguns anos na Capela Santa Luzia (onde, aliás, diariamente se celebra a Missa segundo o Rito de São Pio V por padres da citada Adm. Apostólica e devidamente autorizadas pelo então Arcebispo de São Paulo Dom Claudio Hummes).

As partes em vermelho são as originais do texto do pe. José Edilson.

É uma língua estável: pelo fato de ser uma língua morta, não está sujeita às evoluções próprias das línguas faladas pelo povo. É excelentíssima, por isso, para mostrar a sublimidade do Santo Sacrifício e, principalmente, para conservar a Fé, que acha na Liturgia sua expressão externa.

Aqui podemos utilizar como exemplo a resposta do povo à saudação final do sacerdote na Missa: 'Graças a Deus!'

No Latim é 'Deo Gratias'. Em português não se distingui se alguém está dando graças à Deus pela Missa que acabou de assistir ou se está desabafando aliviado por finalmente ter terminado a Missa...

'Graças a Deus' assume essas duas possibilidades na língua portuguesa. E aqui, neste caso, não é um problema da tradução, mas culturalmente a citada expressão acabou assumindo esses dois significados.

Talvez para evitar esse tipo de ambiguidade outras duas grandes religiões continuam utilizando uma língua separada e considerada sagrada para o culto: o Judaísmo utiliza o hebraico e o Islamismo o árabe. O fato dessas religiões utilizarem uma língua própria para o culto e que muitas vezes é desconhecida de seus membros, não ganha destaque e nem gera polêmica; mas é só o Papa falar em Missa em Latim que vira manchete de jornal e inúmeros colunistas ficam revoltados com o "atraso" da Igreja...


É uma língua fixa: aperfeiçoada com termos próprios formados pela legislação romana, possui grande clareza. No decorrer da História, somente os hereges se opuseram ao uso do latim no culto: no séc. XIII os cátaros e valdenses; mais tarde os hussitas e os protestantes; seguiram-nos os jansenitas e os católicos racionalistas. A razão disto é que pela mudança no modo de orar, eles infiltram as heresias pois a lei da oração é a lei da fé (lex orandi, lex credenci). O latim é, pois, uma barreira contra as heresias.

De fato, o latim tem uma força semântica muito grande, só equiparada pelo grego.

Por isso afirmou Pio XII: “O uso da Língua Latina é um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei, nº 53)

Lex orandi, lex credenci: a maneira como rezamos expressa a fé que temos. É impressionante notar, assim, que a maneira como muitos sacerdotes celebram e zelam pela Missa expressa exatamente a fé que têm...

Sobre isso vejam Sacramentum Caritatis nº 34 à 42; sem esquecer a Ecclesia de Eucharistia nº 52: "O sacerdote, que celebra fielmente a Missa segundo as normas litúrgicas, e a comunidade, que às mesmas adere, demonstram de modo silencioso mas expressivo o seu amor à Igreja".


Língua misteriosa e santa: o latim, mediante seu caráter decoroso, suscita um sentido profundo no mistério eucarístico.

Eis algo que a liturgia em vernáculo e versus populum perdeu completamente: o sentido de mistério.

E o desejo de fazer a liturgia compreensível para o povo mais simples levou muitos sacerdotes e equipes de liturgia a rebaixá-la demais... quando o oposto deveria ter sido priorizado! O povo deve ser instruído, catequizado, 'elevado' para melhor conhecer os Santos Mistérios! E não o contrário, rebaixando e empobrecendo a Missa até poder ser compreendido pelo povo.

"Num mundo secularizado, em vez de procurar elevar os corações para a grandeza do Senhor, procurou-se muito mais, eu acredito, rebaixar os mistérios divinos a um nível banal" (Dom Malcolm Ranjith - entrevista citada no próximo item; não deixem de ler!).


Língua unitiva: na diversidade de povos, o Latim é grande sinal de unidade na Igreja. Todos podem rezar em uma só voz com a Cátedra de Pedro. Embora haja no Oriente línguas de culto, o Latim é a maior expressão da unidade no tempo e no espaço. O abandono do Latim após o Concílio Vaticano II abriu as portas para inúmeras divisões na Igreja no campo litúrgico com todas as suas consequências. Pode-se dizer, sem exagero, que o uso do vernáculo facilitou a transformação da Liturgia, em muitos lugares, numa colcha de retalhos ao sabor da livre inspiração de cada um.

Importante frisar que esse completo abandono do Latim se deu não por culpa direta do Concílio Vaticano II (e nem poderia ser diferente), mas por uma péssima e maldosa interpretação do mesmo, já que o Concílio mesmo não mandou abolir o Latim da liturgia!

Ele trata da Língua latina em dois pontos:

  1. “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 36, § 1)

  2. “Providencie-se que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em Língua Latina as partes do Ordinário que lhes competem.” (Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 54)

Ou seja, no primeiro ponto o Concílio diz que o uso do vernáculo é um "direito particular", ou seja, deve ser usado como medida pastoral especial a ser decidida pelo bispo diocesano. O uso do vernáculo é a excessão que virou a regra! Infelizmente...

O segundo ponto demonstra que realmente não era intenção do Concílio abolir o Latim, pois pede que os fiéis sejam instruídos para saber rezar e cantar as partes que lhe competem nessa língua!

Por isso afirma o Código de Direito Canônico “Faça-se a celebração eucarística em língua latina ou outra língua, contanto que os textos litúrgicos tenham sido legitimamente aprovados.” (Cân. 928)

Sobre esses temas, tenhamos em mente que Nosso Senhor prometeu Sua assistência à Igreja e Ele não deixa de suscitar verdadeiros profetas que amam a Verdade e não temem anunciá-la! (vide, por exemplo, a entrevista de Dom Malcolm Ranjith ou o prefácio escrito pelo então Cardeal Ratzinger para o livro de pe. Uwe Michael Lang, além de um recente artigo do pe. Nicola Brux; exemplos não faltam!).


Mas voltemos aos argumentos de pe. José Edilson para o uso do Latim...


Mantém a pureza da liturgia: o Latim impede que elementos estranhos ao culto possam ser usados na Liturgia. Quando vemos hoje Missas celebradas com danças sensuais, pagãs, ao ritmo de Rock, usando termos chulos, aos som de atabaques e coisas semelhantes, onde o culto a Deus é substituido pelo culto do homem, é porque para muitos já se perdeu o sentido do sagrado, do objeto da Liturgia, que se torna propriedade particular do celebrante ou da comunidade, e não patrimônio da Igreja.

Sobre essa perda do sentido do sagrado, muito se deve às invenções de "animadores" da liturgia que a cada domingo tentam inventar maneiras novas para o povo participar mais "ativamente" da celebração. Nada mais ilusório essa arrogante pretensão de ensinar a Igreja como deve celebrar! O máximo que conseguem é fazer com que o povo perca o sentido de mistério sagrado que envolve a liturgia...

"Desenvolveu-se, de fato, a impressão de que a liturgia seja 'feita', que não seja algo cuja existência nos precede, algo que nos é 'dado', mas algo que depende das nossas decisões. Disto se segue, como consequência, que não se reconheça essa capacidade de decisão só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas que, definitivamente, qualquer 'comunidade' queira se dar uma liturgia própria. Mas, quando a liturgia é algo que qualquer um faz por si mesmo, então desaparece aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida". (Cardeal Joseph Ratzinger, citado por Andrea Tornielli em "Bento XVI - O Guardião da Fé", pag. 208).


É a língua tradicional mais usada na Igreja: o Latim nos mantém em contato com todo o passado da Igreja, com a beleza do canto Gregoriano, com sua arte, cultura e nos leva à visão da Igreja como um todo historicamente ininterrupto.


São esses seis os pontos vantajosos listados por pe. Edilson para que se utilize o Latim.


Pretendo voltar ainda à esse tema.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

O Latim - parte I

O verdadeiro horror que uma parcela considerável dos sacerdotes têm ao uso do Latim sempre me causou surpresa. Se é a língua oficial da Igreja, porque fugir tanto dela?

Falar em Missa em Latim, então, tornou-se praticamente uma blasfêmia!

Essa minha surpresa aumentava na proporção em que eu tomava conhecimento do grande apreço que o Magistério da Igreja teve e tem pelo Latim (vide citações abaixo). E aí a surpresa já começava a dar lugar a uma certa decepção...

Recentemente eu li uma biografia do papa Bento XVI escrita por Andrea Tornielli. Em um capítulo em que o autor analisa o pensamento do Cardeal Ratzinger sobre liturgia, ele cita um trecho em que o cardeal fala sobre o uso do Latim: "A linguagem da Mãe (a Igreja) se torna nossa; aprendemos a falar nela e com ela, de modo que as suas palavras se tornam, pouco a pouco, sobre os nossos lábios, as nossas palavras".

Uma perspectiva nova para a questão do uso do Latim se abriu diante dos meus olhos!

Devo amar e até aprender algumas orações em Latim por um motivo simples: é a língua de minha Mãe! Agrada-a muito que seus filhos saibam rezar em seu idioma, para que as palavras dela se tornem - como disse o Cardeal - "sobre os nossos lábios, as nossas palavras"!

Nesse momento penso, paralelamente, em tantos descendentes de estrangeiros que temos no Brasil. Será que têm pela língua nativa de seus pais ou avós o mesmo desprezo que muitos católicos têm pelo Latim? Como se sentiriam as mães italianas, japonesas, alemãs, que ouvissem de seus filhos palavras de desprezo pelo italiano, japonês, alemão? Nesse sentido, como será que a Igreja, nossa Mãe, se sente ao ver, por exemplo, um filho querido - um conhecidíssimo sacerdote - dizer em uma entrevista que é ignorante do idioma a ponto de que "se me mandarem falar latim, vou fazer: 'Au, au, au!'” ????

Assim, se é excelente que saibamos algumas orações em Latim para rezar com a Igreja, quanto mais não será melhor que a Santa Missa seja também em Latim! Toda a Família Católica reunida rezando e oferecendo à Deus o Sacrifício Perfeito em um mesmo e santo idioma.

Não tenho aqui a intenção de criticar absolutamente o uso do vernáculo, que é legítimo e tem seu valor, mas me entristece esse ódio que se criou ao uso do Latim.

Que bom seria se tivessemos naturalmente em nossas paróquias Missas sendo celebradas em Latim. Digo 'naturalmente' no sentido que isso ocorrese com naturalidade. Porque atualmente ocorre o oposto! Parece uma coisa do outro mundo querer o Latim e até gera uma tremenda polêmica a simples menção de se preferir a Missa em Latim ou, por parte de sacerdotes, de se querer celebrar assim a Missa.

O que está, definitivamente, em oposição ao querer da Igreja! Inclusive o Concílio Vaticano II jamais aboliu o uso do Latim na Missa.


Segue uma coletânea de textos do Magistério tratando do Latim.


“Se alguém disser que o rito da Igreja Romana (...) só se deve celebrar a Missa em língua corrente [vernácula](...), seja excomungado”
(Concílio de Trento, Cânones sobre o Santíssimo Sacrifício da Missa, cânon 9).

“A Língua Latina é a língua própria da Igreja Romana” (Papa São Pio X, Encíclica Inter Pastoralis Officii).

“O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.” (Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei, nº 53)

“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido, e onde houver caído quase em abandono, seja absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de novidade escreva contra o uso da Língua Latina nos sagrados ritos da Liturgia.” (Papa João XXIII, Encíclica Veterum Sapientia).

“Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 36, § 1)

“Providencie-se que os fiéis possam juntamente rezar ou cantar em Língua Latina as partes do Ordinário que lhes competem.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 54)

Faça-se a celebração eucarística em língua latina ou outra língua, contanto que os textos litúrgicos tenham sido legitimamente aprovados.” (Código de Direito Canônico, Cân. 928)

Missa se celebre quer em língua latina ou quer noutra língua, contanto que se usem textos litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com as normas do direito. Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.” (Instrução Redemptionis Sacramentum, nº 112)


“O que acabo de afirmar não deve, porém, ofuscar o valor destas grandes liturgias; penso neste momento, em particular, às celebrações que têm lugar durante encontros internacionais, cada vez mais frequentes hoje, e que devem justamente ser valorizadas. A fim de exprimir melhor a unidade e a universalidade da Igreja, quero recomendar o que foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia com as directrizes do Concílio Vaticano II: exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua latina; sejam igualmente recitadas em latim as orações mais conhecidas da tradição da Igreja e, eventualmente, entoadas algumas partes em canto gregoriano. A nível geral, peço que os futuros sacerdotes sejam preparados, desde o tempo do seminário, para compreender e celebrar a Santa Missa em latim, bem como para usar textos latinos e entoar o canto gregoriano; nem se transcure a possibilidade de formar os próprios fiéis para saberem, em latim, as orações mais comuns e cantarem, em gregoriano, determinadas partes da liturgia”
(Papa Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis, nº 62).